Ainda é possível ser neutro em uma era de imparcialidade utópica

Ronaldo Pascoal

Talvez essa questão de neutralidade seja um problema mundial. Ou não, uma vez que existem muitos veículos de comunicação estrangeiros esbanjando jornalismo limpo na cara da mídia tupiniquim. Apesar dessa triste realidade – para nós -, ainda é possível encontrar veículos brasileiros que contribuem para a informação do povo. Que levam a cabo o compromisso exercido com os leitores. Que se esforçam em manter a notícia clara. Que entendem que cada um tem o direito de formarem suas opiniões a partir do fato e não da visão do veículo. É possível encontrar jornais que priorizam o fato ao patrocínio. Assim é o jornal O Estado de São Paulo. Corrigindo, pelo menos foi assim que se posicionou o periódico, em relação aos últimos acontecimentos envolvendo nossos vizinhos colombianos.

Falar de guerra não é tarefa fácil. Falar de política menos ainda. Falar sobre os dois assuntos em uma mesma matéria? No mínimo se assemelha a vencer o Bowser em Super Mario World. Bom, o Estadão conseguiu vencer esta fase com louvor e resgatar a princesa do jornalismo. A desaparecida há tempos em alguns veículos de comunicação, a Imparcialidade. Ao escreverem sobre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o tenso conflito vivido pelos colombianos, os jornalistas do Estadão o fizerem de maneira isenta, não condenando e nem justificando nenhum dos lados. Apenas informaram o que estava acontecendo aqui ao lado.

Usando o filtro disponível na versão digital do jornal, encontramos mais de sete mil publicações relacionadas as Farc e a situação do acordo de paz. Essas publicações dividem-se entre matérias e artigos de opinião. Filtrando mais ainda, pode-se encontrar aproximadamente 300 notícias diretamente ligadas ao conflito em si e mesmo assim, existe neutralidade em cada linha. Mesmo sendo um jornal de direita, em matérias abordando questões políticas, as Farc não foram julgadas, condenadas ou até mesmo insultadas por suas ideologias esquerdistas. O jornal se conteve em noticiar o fato. Inclusive, nas matérias mencionadas, apenas uma encontra o termo “esquerda”, e é em seu título: “Esquerda perde força na América Latina” , o que não se pode nem chamar de tendenciosidade, haja vista que isso realmente aconteceu e tem acontecido.

O Estadão ainda deu espaço para publicações em que mostravam o lado das Farc. Não justificando os crimes cometidos, mas abrindo as portas para que o pedido de perdão do líder da guerrilha, Rodrigo Londoño Echeverri, também conhecido como Timochenko, fosse lido pelo povo. Houve também matérias informando sobre as dificuldades dos ex-guerrilheiros, – em sua maioria mulheres e jovens – em serem aceitos na sociedade depois do acordo de paz assinado.

Em nenhuma das matérias é possível perceber o posicionamento do jornal em relação ao resultado da votação colombiana. É como se o Estadão não tivesse se posicionado de fato, nem a favor, nem contra. Algo digno e que deveria ser frequente em qualquer veículo de comunicação. A opinião direta do Estadão se contentou em ficar dentro dos artigos de opinião. E nessa editoria, eles são livres para dizerem o que pensam e defenderem o que acreditam. Afinal lê o Estadão quem partilha das visões do Estadão.

É claro, não se pode afirmar que o jornal é completamente isento, limpo e sem politicagem ou jogadas de interesses. Não se pode dizer com veemência que o jornal diário, um dos que possuem maior tiragem no país é imparcial. Até porque isso é impossível, ainda mais quando se envolve mídia e mais impossível ainda quando se envolve a grande mídia. Porém, pode se afirmar que a ética foi mantida em suas matérias. A situação na Colômbia é delicada e um jornal com a força do Estadão poderia ter influenciado não no resultado do plebiscito, é óbvio, mas sim na maneira como os brasileiros iriam se posicionar diante de todo esse contexto.

Ao Estadão ficou a tarefa de informar o povo o que acontecia no país ao lado e graças ao seu trabalho bem feito, agora os brasileiros podem tomar suas posições. Sabendo o que aconteceu e o que está acontecendo, os críticos e doutores em política internacional do Facebook podem se posicionar favoráveis ou contrários as Farc, ao governo colombiano e toda essa situação.

Infelizmente os colombianos votaram não a paz e agora o acordo está sendo renegociado. Por que não votarmos sim por mais veículos como o Estadão e renegociarmos o jornalismo?