“Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa”.

Infelizmente (ou felizmente, não saberia dizer), esta frase clichê de um antigo programa humorístico é a primeira coisa que me vem a mente quando penso em “saúde” e sua abordagem em mídias brasileiras. Certamente não por uma verdade expressa na construção, mas pela ironia que ela representa. O fato é que, neste tipo de cobertura, há muita pressa e pouco interesse.

A cobertura sobre saúde em periódicos brasileiros, quase sempre, se concentra no universo “oficial”. O que o governo deveria fazer, o pouco que faz “mal feito”, os furos nas promessas e propostas. Há uma tendência, nada sutil, de demonizar o serviço de saúde oferecido pelo Estado. Há muita pressa em falar da falta de estrutura e profissionais, das verbas insuficientes, das medidas equivocadas, da corrupção na gestão de instuições e montantes. Pouco interesse em enfatizar programas desenvolvidos pelo governo, as estatísticas destas iniciativas ou os números do Sistema Unico de Saúde (SUS).

Longe de mim achar que o SUS representa o melhor que se pode haver em saúde. Apenas acho que a mídia se esquece de ressaltar o caráter realmente “único” de nosso sistema público de atendimento. O Brasil é um dos poucos países onde o atendimento médico disponibilizado pelo governo é totalmente gratuito. Antes de louvar as maravillhas dos programas similares em países desenvolvidos (exemplo dos EUA), seria importante ensinar que o sistema do Tio Sam, ao contrário do nosso, custa pequenas fortunas à parcela menos favorecida daquele país.

Tanta pressa e tão pouco interesse acaba criando o que podemos chamar de “raciocínio sofístico”. Uma crença de que saúde no Brasil é o que há de pior.

Engano!

Brasileiro sabe muito pouco sobre o que é feito em saúde no Brasil, ou sobre saúde, no sentido mais puro da palavra. É verdade que nos últimos anos houve um crescente em relação ao tema, ainda assim, poucos espaços são destinados a esclarecimento, a tratamentos (alternativos ou não), a inovações, ao progresso da ciencia no campo, ou a dicas básicas para uma manutenção saudável do corpo. Isto, quando comparamos o tema com outros de expressão similar. E menos ainda é dito sobre os programas estatais desenvolvidos dentro do universo da saúde. 90% da abordagem midiática se contenta em falar dos problemas de nosso sistema e não de soluções. Tampouco procura educar o povo nesta temática.

É preciso assinalar os problemas e exigir melhorias? Sem dúvida. Mas nossas exigências devem advir de um equilibrado reconhecimento do contexto em que estamos inseridos. Não nego que há corrupção, falta de verbas e estrutura, mas reconheço que desfrutamos de atendimento gratuito e de iniciativas governamentais “pró-saúde” que poucos países de primeiro mundo tem. Nossa exigência, nossa luta deve focar-se na melhora de um sistema que já é superior há programas desenvolvidos em grandes potências.

A percepção desta realidade e um olhar assertivo para a questão só pode ser adquirido com o apoio de uma cobertura midiática equilibrada, interessada, pouco apressada em seu julgamento. Uma mídia que construa argumentos sob as perspectivas corretas.

Espero que esta edição do Canal da Imprensa te leve a profundos caminhos de reflexão. Caminhos que este modesto texto apenas ousou arranhar. Sejam bem-vindos!

por Andreia Moura
Editora-chefe do Canal da Imprensa