Talvez, as feridas ainda estejam abertas; as fraturas, expostas

Sabryna Ferreira

Insinuaram uma bandeira branca ao longe e intentaram apagar os últimos 52 anos com aquilo.
– “Paz! ” – Clamaram. E enquanto uns ponderavam, do lado de fora, os olhos atentos e curiosos esperavam pelo sim.
– “No, no, no, no, no…”– Disseram (umas 12 milhões de vezes), por fim.

Na colômbia, não tem essa de “Faça amor, não faça guerra”. Por lá, o Código de Hamurabi é levado ao pé da letra. O conflito continua. Até quando? Ninguém sabe. É de se esperar que um conflito de 52 anos não acabe num estalar de dedos. Muito menos que seja esquecido por pessoas que viveram aquela realidade por tanto tempo. Mas pedir pena mais dura não perdura a guerra? A mim, a resposta parece óbvia: deveria ser o antônimo da palavra que define a escolha dos colombianos ao fim do conflito.

O ano de 1964 teve algo em comum que marcou tanto a história do Brasil como da Colômbia. Aqui, instaurava-se uma ditadura militar e, no desenrolar dos fatos, surgia o Comando Vermelho. Lá, a oposição entre liberais e conservadores resultouna criação de guerrilhas, entre elas as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que estão ativas até hoje.

Sequestros e tráfico de drogas mantêm as Farc de pé, assim como suas ideologias marxistas-leninistas. Os guerrilheiros mataram. Os guerrilheiros morreram. Nesse impasse de “eles são do bem ou são do mal? ”, só o povo colombiano pode dizer o que é e o que deixa de ser. Mas não se pode negar que o grupo beneficiou certas regiões. Também não se pode esquecer que seu propósito original era promover a igualdade social, ao exemplo do Comando Vermelho. Se ambos se perderam de lá para cá, são outros 500. A preocupação reside no imprevisível que ameaça o que há daqui para frente.

O que diz a Carta?

Com o coração na mão, vasculhando o horizonte como quem espera ansioso, na soleira da porta, por uma carta com mensagem determinante, o mundo acompanhou o plebiscito colombiano. Cheios de expectativas, feito quem recebe a famigerada carta das mãos do carteiro, o mundo se colocou em frente às telas. Igual a quem deixa os braços caírem de choque com os dizeres decepcionantes da carta, o mundo perdeu as esperanças de ver o fim do conflito na Colômbia.

De acordo com a revista Carta Capital, as pesquisas mostraram que o “SI” iria vencer por 66% a 54% dos votos, apesar de 63% dos eleitores não terem votado. Com isso, eu fico aqui me perguntando: “ o que aconteceu nesse percurso até às urnas? Foram todos tomados por más lembranças e apoderados por um espírito de rancor? Como a vontade de menos da metade da população pode realmente representar o querer de TODA a Colômbia, uma vez que as pesquisas de intenção de voto indicavam o contrário? ”

No campo de busca do site de Carta Capital, 149 resultados aparecem quando se pesquisa “Farc”. Os dez primeiros títulos apresentam o conflito de forma desastrosa em textos longos. Levemente indignada, assim como quem torcia pelo sim, a semanária voltou seus argumentos para condenar o não – com toda aquela sutileza de quem não quer transgredir os princípios do jornalismo, é claro. Se imparcialidade e isenção existissem, de fato, eu diria que a revista chegou bem perto deste ideal na cobertura daquela extensa“novela colombiana”. Mas é impossível um ser humano jornalista, com toda a sua bagagem própria de vida, convicções e cultura, atingir tal coisa. É impossível, antes de tudo, pelo simples falo de esta coisa nem mesmo existir. Os estudiosos de Comunicação estão aí para comprovar o fato.

Ellos no quieren la paz

“Cada cabeça, uma sentença”, diz o ditado popular. A sentença das cabeças colombianas não precisa se justificar aos julgamentos externos, é bem verdade. Ninguém pode sentir o que eles sentem. Muito menos dizer o que devem fazer. Talvez, as feridas ainda estejam abertas. As fraturas, expostas. Mas eles não escolheram rumar para a cura. É tão nítido que os frutos dessa decisão serão amargos, como os últimos 52 anos, que se torna difícil, para quem vê de fora, entendê-la. Só nos resta respeitar o fato de eles amarem mais o passado do que a própria nação, ao ponto de se negarem a ver que o novo sempre vem e que é preciso estender os braços a ele.