Impeachment, golpe, fim da esquerda, purgatório do povo…
O cenário político dos últimos meses gerou uma série de discussões sobre os rumos do Brasil e a legitimidade das medidas perpetradas pelo legislativo com supostos fins de melhorias e organização. Para falar do assunto o Canal da Imprensa conversou com o cientista social Frederico Cesarino. Ele é doutorando em Sociedade e Cultura pela Universidade Federal do Amazonas e docente na Universidade Luterana do Brasil.

Canal da Imprensa: O que aconteceu com Dilma, e tangencialmente com o partido dela, foi GOLPE?
Frederico Cesarino: Inicialmente vamos à definição do termo golpe de estado: trata-se de uma “derrubada” ilegal, por parte de um órgão do estado, de uma ordem constitucional legítima. Ora, é evidente que desde meados do primeiro governo Dilma, houve uma grande movimentação de alguns setores políticos, sociais e econômicos para a desconstrução da imagem da Presidente e de seu partido e, após as eleições de 2014, da retirada de Dilma do cargo. Ao contrário do governo do presidente Lula, que era um grande articulador e negociador, Dilma não foi capaz de manter a articulação política com os partidos de sua base, com os partidos de oposição, com os diversos setores sociais e econômicos e, com isso, causou uma irritação generalizada dos mesmos com o governo.
No entanto, a articulação política para a retirada de Dilma de seu cargo foi baseada em fundamentação legal (o suposto crime de responsabilidade fiscal que permitiria um processo de impeachment), aliada à inflamação do povo para que sentisse rejeição ao governo. Assim, em tese, não se pode dizer que se tratou de um golpe, no sentido lato da palavra.

Canal: A mídia foi um agente protagonista neste “golpe de Estado”?
Cesarino: Certamente sim. Em um determinado momento da história recente, todos os telejornais das emissoras privadas, além da maioria da imprensa escrita, dedicava cerca de 80% de seu conteúdo relacionado às denúncias contra o governo de Dilma Roussef. O mesmo nas mídias digitais de maior porte. Foi um trabalho contínuo e gradual para criar um clima de antipatia ao governo pelos receptores da informação.

Canal: Quais aspectos diferem o que aconteceu agora com os fatos de 1964?
Cesarino: Em 1964 foi um golpe no sentido lato da palavra. Um governo legalmente constituído foi derrubado por meios totalmente ilegais. Foi uma tomada à força do poder. Em 2016 ocorreu um processo de justificação legal para a saída da presidente.

Canal: As denúncias de corrupção e o impeachment de Dilma Rousseff esfacelaram a esquerda. A esquerda conseguirá renascer?
Cesarino: A esquerda terá que pensar e repensar a sua estratégia para que, um dia, possa retornar ao poder. Terá que pensar em nomes que sejam 100% limpos, sem qualquer denúncia sobre eles. Deverá saber articular com todos os setores, sejam aliados ou não. E, principalmente, devem apresentar um projeto social que seja exequível e sensato.

Canal: Temer anda falando em aparelhar a EBC. Quais os perigos de uma atitude como esta?
Cesarino: Todos os governos devem fazer propaganda de suas ações. E utilizam seus meios disponíveis. Michel Temer não tem apresentado bons índices de aceitação popular, e uma das maneiras de tentar reverter essa imagem é por meio de um trabalho pesado de propaganda e moldagem de sua imagem pessoal. É um direito do presidente. Por se tratar de uma empresa de comunicação governamental, ela somente irá apresentar os aspectos positivos do governo. Cabe à imprensa independente, portanto, apresentar o outro lado da moeda.

Canal: Na França, por exemplo, os governos “direitistas” incentivam e apoiam a existência de veículos comunistas. Na verdade incentivam que haja o maior leque possível de abordagens midiáticas. O que falta ao Brasil para ter maior pluralidade na mídia?
Cesarino: Os governos, nas três esferas, são grandes patrocinadores da imprensa. A partir do momento em que fique proibido o patrocínio estatal nos veículos midiáticos, a imprensa será independente e haverá mais pluralidade na mídia. A informação deve deixar de ser um bem a ser comercializado, para que a verdade seja apresentada, assim como as diferentes opiniões a respeito de um fato.

Canal: Mudanças nas leis trabalhistas, no processo educacional, etc…. Está claro que no novo governo nem tudo serão flores e há controvérsias se tais medidas visam mesmo a beneficiar o povo. O que mais o brasileiro pode esperar nos próximos anos de governo Temer?
Cesarino: Apesar do desejo do governo Temer em realizar reformas, privatizações e restrições econômicas, acredito que ele não conseguirá concretizar a maior parte de seus desejos e dos desejos do grupo que representa. Os processos políticos brasileiros são essencialmente burocráticos, e que permitem uma série de manobras legais para que ocorram. Temer possui pouco menos de 24 meses para concretizá-las, e quando iniciarem os processos para as eleições presidenciais de 2018, tudo ficará parado, uma vez que ninguém vai desejar correr riscos. Então muita coisa permanecerá igual. Mas, até 2018, teremos uma série de cortes e restrições econômicas em vários setores como o ensino e pesquisa, assistência social, saúde e previdência.