Algumas vezes durante minha “curta” vida tive a oportunidade de ouvir (em palestras e afins) relatos sobre o conhecido “experimento dos marshmallows”. A experiência se refere a estudos psicológicos feitos na década de 1960 que se focavam em questões de “recompensa retardada”. O psicólogo Walter Mischel (desenvolvedor da pesquisa) fez diversas investidas com a mesma essência: oferecia a um grupo de crianças 1 marshmallow (ou doce similar) para comerem na hora, ou 2 marshmallows se concordassem em receber a guloseima algum tempo depois (que podia variar entre 15 minutos e 1 semana). Uma maioria expressiva das crianças preferia receber apenas 1 marshmallow no mesmo instante a esperar algum tempo por uma recompensa dobrada. A pesquisa de Mischel tinha fins de demonstrar, entre outras coisas, que as crianças capazes de esperar pelo próprio prazer tinha chances de estabelecerem vidas melhores, mais produtivas.

Não tenho qualquer intenção de discutir profundamente os aspectos psicológicos de tal experiência. Minha menção ao caso objetiva produzir uma metáfora quanto à condição política atual do Brasil.
Uma das coisas que sempre me incomoda em discussões sobre o tema (em ambientes diversos – por lazer ou em minha atuação na academia), se relaciona a percepção de que (na maioria expressiva das vezes) tais debates fixam-se em argumentos superficiais, incipientes, pouco estratégicos e que se focam em recompensas imediatas. Dificilmente o tema é tratado com a profundidade que exige, com a visão e o entendimento das variáveis que agirão a médio e longo prazo.

Este ano (2016) e seus fatídicos acontecimentos políticos reforçam ainda mais em mim tal sensação. Ouvimos falar de “Lava Jato”, “Impeachment”, “Delações”, “Golpe”, etc. e tal. A mídia abarrotou as mentes impressionáveis brasileiras com discursos absurdamente tendenciosos, pouco educativos, pouco instigadores do debate. Instigaram sim, manifestações pelo prenteso “fim da corrupção” e a instauração de um governo livre deste mal, um governo mais sensato, mais preocupado, mais “honesto”(?). Em que mundo, pergunto sinceramente, isto aconteceria pós deposição praticamente ilegal de um governante eleito democraticamente?

Outras perguntas que não querem calar: 1) É a corrupção um mal exclusivo da política dos últimos 13 anos? 2) São as pedaladas fiscais prática ofensora perpetrada apenas pelo governo de Dilma? 3) Tirar o PT da jogada (e a esquerda considerando a questão mais amplamente) resolve o problema econômico do país? 4) A ascensão de Temer e seus cavaleiros limpará o congresso e o executivo das práticas corruptas, criminosas? Para todas as questões a resposta é não!!

Ha questões muito mais complexas e preocupantes que, agora mais do que nunca, merecem análise e reflexão. Viveremos outra vez algumas das calamidades economicas da década de 1990? E as minorias? E os pobres? E a arte? E os trabalhadores? E os estudantes? E os professores? E todos as consequências que só serão visíveis a longo prazo quando apoiamos o retorno a um conservadorismo reconhecidamente elitista e falido?

O problema de todo brasileiro (ou quase todo) é a questão da “recompensa retardada”. Cegados por uma mídia tendenciosa e vendida a interesses particulares, ele não consegue distinguir a obviedade do prejuízo de se escolher o marshmallow instantâneo. Escolher a guloseima do agora é uma decisão equivocada. Ela responde a necessidades/vontades/percepções imediatas com promessas e soluções que (na visão ampliada e estratégica) apenas comprometerão gravemente o amanhã.

Mas o mal do “marshmallow imediato” é difícil de ser combatido. A mera menção ao fato de que 2 é melhor do que 1 gera até mesmo violência. Como uma praga, o discurso do “marshmallow imediato”, disseminado e potencializado pela mídia brasileira, infesta tudo e todos dificultando o combate, o controle, o esclarecimento, a lógica.

O Brasil viveu um “Golpe de Estado” mascarado? Parece. Culpa de quem, da mídia? Também.

Seja bem vindo a mais esta edição do Canal da Imprensa que, antes de tudo, intenta promover o debate isento. Aifinal, a luta continua! Se não pelo fim do governo golpista, por investimento em educação, esclarecimento e estabelecimento de mais veículos alternativos que carreguem a bandeira do verdadeiro debate.

Andréia Moura
Editora-chefe do Canal da Imprensa