Racismo velado nas coisas mais sutis ou escancarado com um discurso de violência, deve ser combatido. Na África do Sul, na Europa e, ironicamente, no Brasil, a discussão ainda não acabou.

Camila Torres

A oração que nomeia esse texto é parte do poema Invictus, do escritor britânico William Ernest Henley, título também escolhido para o filme dirigido por Clint Eastwood. Invictus (2009) é baseado na obra Playing the enemy:Nelson Mandela and the game that changed a nation , do jornalista inglês John Carlin. A tradução para o português recebeu o nome de Conquistando o inimigo . O drama trouxe às telas a história do ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, e sua luta pelo fim do apartheid (sistema de segregação racial).

A história é contada a partir de 1990, quando Mandela (interpretado por Morgan Freeman), após 27 anos de prisão é solto e eleito o primeiro presidente negro da África do Sul. Até o ano do pleito, 1994, o país havia sido liderado apenas por brancos burgueses. Os impasses para reestruturar o país surgem rapidamente, começando pelos funcionários do governo. Vislumbrando que seriam excluídos da nova gestão, funcionários brancos juntam suas coisas para ir embora, mas Mandela avisa que, a partir daquele momento, a nação seria como um arco-íris, referindo-se a cor da pele das pessoas. Brancos e negros deveriam conviver juntos pacificamente, em todos os ambientes.

Embora o plano pós apartheid fosse bonito em sua teoria, na prática o que acontecia era bem diferente. O discurso de ódio e desigualdade continuava permeando a sociedade. Fosse nos campos de futebol ou dentro das casas, entre patroas brancas e empregadas negras. E mais, a postura adotada pelo governo de Mandela gerou um efeito reverso: agora negros pareciam querer a soberania sobre brancos invertendo os papéis.

É nesta época tão controversa que o time de rugby Springbocks , (maior símbolo do sistema da antiga África do Sul e, principalmente, do apartheid), vive o momento que precede ao maior campeonato mundial da modalidade. Mandela vê a oportunidade de utilizar o esporte para unir a nação. Criticado por seus liderados e conselheiros, o presidente tenta o impossível: fazer com que um povo que sofreu nas mãos dos brancos apoie o aclamando time.

No ano do campeonato (1995), a África do Sul seria sede da Copa do Mundo de Rugby de 1995. Mandela cria um slogan para o momento: “Um time, um país” . Em poucos meses o presidente consegue reverter significativamente a questão. Ele convida o capitão do time, François Pienaar (Matt Damon) para uma reunião e pede seu apoio para unir as duas etnias. O time, contra a própria vontade, passa a treinar crianças negras pobres e faz uma visita ao presídio onde Mandela passou boa parte de sua vida. Piennar ainda lança o desafio para que os jogadores aprendam o hino cantado pelos negros, agora utilizado como o hino nacional do país unificado. Até então, o único ídolo do time para os negros era o jogador Chester Williams, também negro.

No final de uma longa campanha em prol dos Springbocks , elo time vence a Copa do Mundo numa final histórica e emocionante que ficou indefinida até os últimos segundos. O jogo contra os All Blacks , da Nova Zelândia, se tornou uma vitória não cogitada, muito menos esperada. Mas o foco não é a vitória em si, mas a torcida, miscigenada, desde os seguranças pessoais do presidente até as pessoas nas ruas e bares. A narrativa do filme, mostrando esse período da vida de “Madiba”, como Mandela é carinhosamente chamado por seu clã, traz acima de tudo a discussão sobre o perdão.

É possível conviver em paz com aqueles que nos oprimiram? É possível restaurar uma nação em que metade do povo possui marcas tão profundas? Na mente de Madiba, sim. “O que passou, passou. Agora vamos olhar para o futuro” . O histórico de racismo vivido na África do Sul e ao redor do mundo é exemplo de que esta questão precisa ser alvo de reflexão e estudo aprofundados com fins de procurar soluções que visem a eliminação definitiva deste mal. Mandela é uma das forças que procuram representar o fato de que esta possibilidade não é utopia. O caminho deve ser este.

Talvez a maior reflexão de Invictus seja que talvez conheçamos apenas um lado da história, aquele contato nas escolas. O fato de que houve resistência na África do Sul. Mas é preciso saber que houve também aceitação, mente aberta, pró-atividade. É isto que vemos do outro lado. Um líder, um time e uma visão inovadora foram capazes de transformar um país. A violência ainda existe na África do Sul, infelizmente como legado dos longos anos de segregação, mas a esperança também.

Racismo velado nas coisas mais sutis ou escancarado com um discurso de violência, deve ser combatido. Na África do Sul, na Europa e, ironicamente, no Brasil, a discussão ainda não acabou. As palavras de Henley no final de seu poema ainda ecoam: Não importa se o portão é estreito/ Não importa o tamanho do castigo / Eu sou o dono do meu destino / Eu sou o capitão da minha alma .

Parafraseando o hino nacional dos sul-africanos “Deus abençoe a África” . Deus abençoe a humanidade!