A partir da relação estabelecida entre a mídia e as expressões de fé, é possível traçar uma linha tênue entre a pregação de uma mensagem espiritual e o “show” da religiosidade

Daniela Fernandes

Ao zapear os canais da televisão brasileira pode-se perceber a incidência de diversos canais religiosos, sejam eles católicos, protestantes, pentecostais, neopentecostais, espíritas, umbandistas, judeus, entre outros. As expressões de fé, agora, não se limitam apenas a um templo ou um espaço físico. Os religiosos passaram a ocupar também a mídia. “Através dos meios de comunicação nós podemos expandir a comunicação do Evangelho e cumprir a nossa missão de uma forma mais rápida. Nós podemos ir mais longe, mais rápido e de uma forma mais abrangente”, afirma Antônio Tostes, pastor e diretor-geral da Rede Novo Tempo de Comunicação, órgão ligado a Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Surgimento da aliança
A relação entre a mídia e a religião não se iniciou nos tempos atuais, nem apenas com os meios televisivos. Não há como datar precisamente esse fenômeno, apenas é possível apontar os pontos-chaves. Essa integração é resultado de um processo histórico que se tornou mais evidente com o surgimento da propaganda, advinda do latim propagare que significa anunciar. Este anunciar apareceu junto ao aspecto religioso, sobretudo, nos tempos das Cruzadas, as quais visavam a propagação do Evangelho. Dessa forma, fazia-se propaganda nesse sentido. Mas publicidade, hoje, tem ainda a ver com essa questão religiosa como antes? Para Rodrigo Follis, doutorando em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, não. “Dizer que a publicidade não tem a ver com essa ideia religiosa em nossos dias não quer dizer que a fonte primária dela não seja a religião. A origem da publicidade e da religião, eu colocaria como algo intrínseco, como se uma tivesse a necessidade da outra. Assim, as duas estão juntas e não podem ser indivisíveis em seu surgimento”, diz.

A contraditória relação da religião com o capitalismo
A pós-modernidade concumitantemente com os avanços tecnológicos proporcionaram uma realidade atrelada ao sistema capitalista, forma econômica de mercado que desenvolve a competição comercial. Inicialmente, o uso dos meios de comunicação por religiosos tinham como objetivo disseminar e perpetuar um discurso espiritual em sua maioria de salvação. No decorrer dos anos, os líderes religiosos passaram a se adequar a essa estrutura financeira chamada capitalismo. A comunicação religiosa assumiu outros caminhos e, na contemporaneidade, agem em conformidade com o mercado competitivo. “Existe por parte de alguns um certo preconceito por conta da existência de uma exploração muito grande através da mídia por alguns canais. Fala-se muito em evangelho da prosperidade onde se apresenta apenas a troca da bênção de Deus por uma contrapartida financeira, e isso acaba gerando um certo preconceito, uma certa barreira da sociedade por conta do uso das comunicações. Isso é notório, é conhecido e, infelizmente, ocorre em certas emissoras”, expõe Tostes.

Comunicar mensagens religiosas no mass media se torna cada dia mais fácil, visto que é um lucrativo mercado em ascensão, fato corroborado pela opinião de Alberto Klein no livro Imagens de culto e imagens da mídia: interferências midiáticas no cenário religioso. O autor escreve que há dupla vantagem em abrir as portas da mídia para as religiões, são elas “auferir lucros com a venda de espaço e se justificar dos pecados da transmissão de conteúdos moralmente condenados pelas diversas denominações religiosas”.

Entretanto o capitalismo faz exatamente o contrário daquilo que a alteridade religiosa admoesta. O sistema se dedica a seus interesses e gera disparidades sociais, pobreza, fome e miséria, tudo aquilo que os religiosos dizem evitar. A América Latina sofre forte exploração capitalista desde a colonização e as consequências se apresentam desastrosas segundo o filósofo argentino, Enrique Dussel, que relata esse fato e diz que “estamos na presença do escravo que nasceu escravo e que nem sabe que é uma pessoa. Ele simplesmente grita. O grito – enquanto ruído, rugido, clamor, protopalavra ainda não articulada, interpretada de acordo com o seu sentido apenas por quem ‘tem ouvidos para ouvir’ – indica simplesmente que alguém está sofrendo e que do íntimo de sua dor nos lança um grito, um pranto, uma súplica”.

Dessa maneira, Follis acredita que deve-se pensar no verdadeiro problema em se utilizar a mídia. “Penso que o grande problema de usar a mídia, e usar inadvertidamente a própria estrutura do capitalismo, é se nós começarmos a ser ‘um’ com o sistema, deixando de transformá-lo e de ser o espírito da mudança da época. Não vejo problema em uma igreja ter centros de mídia, focar na importância do dízimo e dinheiro. Vejo problema quando se vira ‘um’ com o sistema, ou seja, agindo da maneira que antes se criticava”, argumenta o também mestre em Comunicação Social.

Indústria da fé
Os interesses se dividem entre a difusão de uma mensagem espiritual e a “comercialização da fé”. São diversas visões de mundo abordadas que ora orientam o público ora o deixam confuso. Nesse último caso, as igrejas neopentecostais lideram a celeuma. O empreendimento visa, única e exclusivamente, a audiência através de curas e supostos milagres veiculados em rádios, televisão ou mídia impressa, os quais permitem o crescimento numérico dos fiéis. Vale tudo para inovar a geração de conteúdo religioso a fim de disputar em “pé de igualdade” com as concorrentes do gênero e, também, com os programas seculares. Ganha quem possui uma programação visualmente mais “atrativa”.

Apesar do “show” da fé ser evidente e por isso muitas vezes criticado, algo positivo acontece. A garantia da liberdade religiosa. “Religiosidade é algo ligado à paz interior e esta é uma experiência individual, indivisível. Se as pessoas estão felizes porque suas religiões propiciam a paz interior, numa ampla visão enxergaremos uma sociedade vivendo em paz. Portanto a liberdade religiosa é fundamental para que vivamos em harmonia”, argumenta o Rabino Andy Fonseca, Juiz da Corte Rabínica e fundador da United Beth Din do Reino Unido. Contudo se de fato a sociedade vivesse em plena harmonia, não haveria tantas religiões, ou seja, se uma expressão de fé não proporciona paz interior ao indivíduo, este buscará outra. E esse ato de buscar outra é facilitado pela gama de canais religiosos da televisão brasileira.

As críticas quanto a essa realidade podem existir, o que não pode acontecer é a intolerância religiosa, algo visto pela Constituição Federal (art. 5o, incisos VIII e XLII) como crime de ódio sem fiança que fere a dignidade humana. Por isso, não confunda crítica com intolerância.