O “Observatório do Cinema” tenta não revelar sua verdadeira opinião quanto ao app “Pokémon Go”, mas falha

Thamires Mattos

Tamagotchi é uma palavra muito popular para quem era criança durante a virada do século. O brinquedo, com nome derivado de uma junção entre “tamago” (japonês para “ovo”) e “watch” (inglês para “observar”), era utilizado como uma substituição de bichos de estimação reais. O jogador deveria cuidar bem do animal virtual. O aparelho cabia na mão de uma criança, e, assim, muitas delas foram introduzidas a um conceito, hoje, muito comum: realidade virtual. Um dos aspectos do conceito de Realidade Virtual é que ela pode ser compreendida como uma interação entre ser humano e tecnologias que simulam o mundo. De alguma forma, (embora não inserindo seu usuário de forma absoluta em uma realidade criada digitalmente), o bichinho digital foi um dos primeiros passos de contato do homem com o universo virtual.

No entanto, rouba a cena em 2016 a Realidade Aumentada e “Pokemon Go” – primos mais desenvolvidos do tamagotchi. A realidade aumentada nada mais é que a integração de informações virtuais ao que vemos e sentimos no mundo “físico”, concebida de maneira tridimensional e com interatividade em tempo real. Já “Pokémon Go” é um jogo para plataformas Android, iOS e WatchOS que utiliza a realidade aumentada. Ele faz parte da franquia “Pokémon”, derivada do anime japonês homônimo, que é transmitido desde 1997.

Desenvolvido pela Niantic, “Pokémon Go” foi lançado nos Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia em julho de 2016. No início de agosto, foi disponibilizado no Brasil. O aplicativo foi o mais baixado em uma primeira semana na App Store. Os dados são impressionantes, mas o que mais chama atenção são críticas controversas ao jogo. Há quem diga que ele é revolucionário, inovador, e, além de tudo, um incentivo para tirar millenialls de dentro de casa (já que, para caçar pokémons, o jogador deve andar por lugares públicos). O combo perfeito: diversão e saúde. No entanto, a maioria das análises se contenta com o clássico “se é novo, é ruim”. O Observatório do Cinema (OC) transita entre os dois, mas prefere a linha clássica de argumentação.

Na matéria “Pokémon Go: Jogadores já percorreram distância entre a Terra e Plutão” , publicada no dia 10 de agosto, o autor ressalta o impacto do aplicativo para a difusão da realidade aumentada, mas faz questão de ponderar que, “apesar de todo o sucesso, a febre do game pode estar passando, já que ele perdeu quase 10 milhões de usuários nos EUA.” Três dias depois, uma notícia alarmante: “Pokémon Go perde 80% dos jogadores pagantes após poucos meses”. Os dados são de pesquisa da Forbes em parceria com a Slice Intelligence. De acordo com o texto, há uma explicação simples para a fuga de jogadores. Poucos se mantém empenhados para continuar sua “jornada Pokémon”. Mesmo assim, a notícia lembra que isso não é uma situação emergencial para a Niantic. “Mesmo com a queda vertiginosa, Pokémon Go continua sendo o jogo mais lucrativo do momento, batendo grandes nomes da área”.

O portal também abre espaço para intersecções entre show business e o game. “Liam Hemsworth é viciado em Pokémon Go – e irrita a namorada Miley Cyrus”, do dia 12 de agosto, mostra as opiniões da cantora sobre tecnologias emergentes e “febres” virtuais. Miley se descreve como conservadora e alfineta o comportamento de Hemsworth, que queria jogar Pokémon Go logo pela manhã.

O tom do Observatório do Cinema é implícito, mas pode ser percebido com facilidade: o jogo pode até ser bom e fazer sucesso, mas é diferente demais. Se a realidade aumentada causa estranheza aos olhos conservadores, imagine inserir monstrinhos a esse contexto. Querendo agradar gregos e troianos, o OC fica em cima do muro, julgando cautelosamente o aplicativo. O que esses olhos conservadores não percebem é que nada é realmente novo – só se apresenta com roupagem diferente. O tamagotchi está de volta, e se mostra mais forte do que nunca.