Mais de trezentas mil pessoas já cruzaram o Mediterrâneo em busca de liberdade na Europa desde janeiro deste ano. O cenário de rechaço a invasão estrangeira também é retratado no cinema

Kelson Brecht

A necessidade de se adequar, ser aceito, pertencer. Ter a chance de se apaixonar, beijar, amar. Também refutar, brigar, odiar. Expor tais possibilidades e sentimentos inerentemente humanos chega a ser redundante. Enxergar como o espaço e o tempo interferem nos mesmos é essencial.
E liberdade. Esta, furtiva e muitas vezes dissimulada e mentirosa, prometendo e sussurrando as possibilidades sem nos lembrar como e onde alcançá-las ou cedê-las. E acompanhamos esta liberdade escapando do entendimento coletivo, vemos como a confusão é capaz de mudar conceitos e virá-los ao avesso, ou então a busca e conquista por esta tão relativa liberdade sendo figura e literalmente bombardeada.

Mais de trezentas mil pessoas já cruzaram o Mediterrâneo em busca de liberdade na Europa desde janeiro deste ano. Na travessia, ou até mesmo na chegada, mais de dois mil e quinhentos migrantes morreram ou desapareceram. As viagens em embarcações precárias, e muitas vezes organizadas por traficantes de humanos, vem em sua maioria de países em conflito como a Síria e Afeganistão.

Escapando da miséria e ataques aos direitos humanos os refugiados chegam a Alemanha, Áustria, Suécia, França, entre outros países europeus, em busca de um recomeço sem esperarem sofrer um novo tipo de repressão: a xenofobia. A tão esperada chance é então esmagada pelo desprezo no olhar do outro, pela inadequação em um padrão étnico, cultural e político pré-estabelecido. Mas a perseverança do estrangeiro na conquista do rico, do “europeu” não é sufocada. As portas e possibilidades do lado de lá são tantas e tão sedutoras… Resistir se torna impossível.

O filme francês Lila Diz (Lila ditça, 2004) personifica a sedução europeia no corpo e psicológico da personagem-título. Na trama a linda, provocante e altamente hormonal adolescente Lila (Vahina Giocante), de dezesseis anos, se torna objeto de desejo de imigrantes árabes convivendo em uma espécie de gueto na cidade de Marselha num contexto pós 11 de setembro. Com o sexo à flor da pele a menina não hesita em provocar o jovem árabe de dezenove anos Chimo (Mohammed Khouas), um aspirante a escritor com notável talento desperdiçado ao lado de amigos despropositados.

Usando linguagem explícita e sedutora Lila demonstra o orgulho por suas qualidades físicas enquanto conversa com Chimo. Este, encantado pela independência, liberdade, carisma e beleza da jovem logo se vê apaixonado e a procura de maneiras de ser correspondido, mesmo quando Lila não parece estar disposta a ceder o corpo a apenas um homem.

Na leitura da interação dos imigrantes árabes com Lila é notável a postura tomada pelos primeiros, sempre almejando conquistá-la. Ainda mais notável é a reação de Lila ao ser diariamente assediada pelos amigos de Chimo. Pelas antigas ruas de Marselha, a turma insiste em tentar chamar a atenção da moça, apenas para serem completamente ignorados. Até mesmo Chimo, objeto de atenção de Lila, não é necessariamente bem sucedido em conquistá-la. Afinal ela jamais leva o “relacionamento” deles além da atração e provocação.

Lila realmente diz e dita – não apenas verbalmente – o que deve ser conquistado pelos jovens árabes do bairro. E é interessante ouvir Chimo se questionar os motivos para o interesse da garota por ele. “Por que eu?” Diz ele. “Sou apenas um árabe. Escuro e crespo.” A fala já expressa uma auto depreciação de Chimo, uma expectativa de corresponder àquilo adequado ao padrão de alguém tão bela quanto Lila, mesmo quando esta já estava aparentemente satisfeita com a “diferença” de Chimo.

Em Lila Diz a ânsia de conquistar a livre garota e na beleza dela encontrar felicidade e paz é uma ilustração dos tempos atuais. É para a rica e bela Europa que os olhos dos desesperados estrangeiros estão voltados, e é para eles que mãos se estendem em negação.

Contrastando com a visão mais realista de Lila Diz surge o também francês Paris, eu te am o (Paris je t’aime, 2006) um filme antológico de curtas retratando dezoito dos vinte distritos (ou arrondissements ) de Paris. Vinte e dois diretores de diferentes nacionalidades (incluindo os brasileiros Walter Salles e Daniela Thomas) participaram nos roteiros e direção dos curtas. Atores de diversas nacionalidades também estrelaram a produção.

Enquanto Lila Diz trazia um pequeno núcleo de personagens para retratar uma trama ligeiramente mais complexa e intimista, Paris, eu te amo traz um enorme elenco de atores para compor diferentes histórias espalhadas por toda Paris, onde o amor é explorado nas mais diferentes formas – o romance sendo obviamente o mais comum.

Sim, Paris é considerada a cidade mais romântica do mundo. Mas a do filme é uma Paris toda-inclusiva, onde o jovem francês facilmente se apaixona por uma garota envolta em um, hijabe o avô igualmente mulçumano logo o aceita. Até os folclóricos e fantasiosos vampiros tem a chance de serem inclusos na romântica Paris. É uma cidade onde o amor é concebido. Como um útero ela gesta todas as formas e fontes de amor.

Bem diferente de Lila Diz , a Europa de Paris, eu te amo não precisa ser conquistada, pois ela conquista você. Como retratado em um dos curtas: uma carteira norte-americana interpretada por Margo Martindale viaja a Paris e não apenas ela se apaixona pela cidade, mas acredita que a própria cidade se apaixona de volta.

É habitual existirem produções-homenagem a Cidade das Luzes e Paris, eu te amo não foge à regra. Porém o sonho romântico retratado no filme está longe de ser realista na ilustração de como o amor de fato se manifesta pelas ruas europeias, principalmente em relação ao estranho e estrangeiro.

Não é necessário conquistar Lila – nem ouvir o que ela diz. E a mágica cidade retratada em Paris, eu te amo não precisa se tornar realidade para a necessidade de adequação, respeito e liberdade ser finalmente saciada.