Quando a linguagem equilibrada é a base da comunicação, o jornalismo triunfa

Julie Grüdtner

Uma heroína anônima no mar de Copacabana”; “Medalhista no taekwondo foi ajudante de pedreiro e treinou no Irã” ; “Veja as musas dos jogadores brasileiros da Seleção Olímpica”.
Essas foram algumas das reportagens que o grupo multimidiático Lance! publicou durante o período das olimpíadas. Duas fazem jus às expectativas do editor-chefe Luiz Fernando Gomes quanto a cobertura das olimpíadas. Num bate papo com Alberto Dines, Gomes apontou o maior desafio da cobertura, que consistia em não usar uma linguagem parva demais ou técnica demais. Mas a questão levantada foi seguida rapidamente por uma solução: contar histórias. “Porque o drama humano e a conquista humana interessam a todas as pessoas, independente se elas entendem ou não sobre determinado assunto”, concluiu o editor.

Gomes formulou a receita chave de como alimentar bem o público, afinal, conseguiu agregar o útil ao agradável. O útil, a informação; o agradável, a humanização dos fatos. Essa ideia chave deu origem ao blog “lado B do Rio”, escrita competentemente por Gomes.

Infelizmente, o grupo Lance! cedeu à tentação de inverter certas prioridades. Isso ficou evidente quando publica uma manchete sobre as mulheres (“musas”) dos jogadores. Algo que não está diretamente ligado aos jogos tomou certo espaço da página inicial do veículo. E, pior, a manchete ficou entre as cinco mais lidas do site. Com a exaltação de algo tão frívolo, as palavras do editor-chefe perderam um pouco do peso. Esse foi o calcanhar de aquiles do veículo. Um erro grande, mas não fatal.

No que diz respeito a cobertura dos jogos, o grupo Lance! retratou as olimpíadas da maneira que elas merecem. A seção “Rio 2016” do site deixou estampado o orgulho brasileiro em sediar o megaevento. Não só pelo layout muito bem elaborado, mas pelo conteúdo de ponta que foi apresentado. Inclusive, a rapidez do processo de remodelagem foi um ponto crucial muito forte da abordagem. Havia a seção “ao vivo” que era atualizada de minuto a minuto para que o leitor pudesse estar em contato direto com as informações.Cada matéria foi bem apurada e as várias imagens também transmitiram a dimensão que uma olimpíada é.

As subdivisões também foram outro ponto forte do site. Para cada gosto, uma abordagem e tema diferentes.Isso também significa que todos os temas foram abordados, não somente esportes que a grande massa prefere. Englobar todos os assuntos também deu grande credibilidade ao grupo Lance!.

No geral, existem dois tipos de jornalismo: o equilibrado e o exagerado. Enquanto o exagerado procura jogar informações exorbitantes na cabeça das pessoas, o jornalismo equilibrado mantém fielmente os princípios da comunicação: passar uma mensagem. Foi esse jornalismo que o grupo Lance! aderiu ao manter tão formalmente a linha de matérias relevantes. O que também chamou a atenção de quem visitou o site do grupo é a autenticidade com ele lidou com o quadro de medalhas. Eles criaram o próprio um critério de pontuação baseado no peso de cada medalha. A explicação no site era a seguinte: “O LANCE! considera justo que o ranking seja pela soma das medalhas conquistadas por um país, sendo 1 ouro = 3 pontos; 1 prata = 2 pontos; 1 bronze = 1 ponto.” Essa avaliação dá ao leitor uma visão mais panorâmica do valor de cada medalha, e não apenas o total delas. A Jamaica, por exemplo, ficou com 26 pontos. Ela teve seis medalhas de ouro, três de prata e duas de bronze, enquanto o Cazaquistão ficou com 28 pontos por causa das nove medalhas de bronze, cinco de prata e três de ouro.

Sobre a propaganda na página: pouca. Isso é um certo tipo de avaliação inconsciente que qualquer faz ao abrir uma página. Por ter pouco marketing na página é automático que o maior valor possível seja dado para o conteúdo jornalístico. Ficam claros os propósitos do grupo. Ele familiarizou seus leitores para que se sentissem como espectadores presenciais das olimpíadas. Cada história foi um degrau que o leitor subiu para se enteirar do que “Rio 2016” foi para o Brasil e para o mundo. Comprovando que Luiz Fernando Gomes estava certo em se preocupar com o equilíbrio da linguagem.

Quando a linguagem é equilibrada, a comunicação acontece e o leitor se faz cidadão.