Quando Thomas More escreveu A Utopia jamais imaginou o que poderia ser uma sociedade massificada. Tampouco, como o efeito das tecnologias e dos meios de comunicação conseguiriam transformar seu conceito de sociedade ideal em uma versão doentia, a distopia. Embora as distopias pareçam realidades sociais previsionadas para futuros distantes, é um erro não perceber o quão distópicos nossos mecanismos já são.

Cercados e dominados por tecnologidas. Presos a um sistema econômico que monetariza o tempo. Alienados por entretenimento vulgar, violento e invasivo disponibilizado pelas mídias. Hipnotizados pela informação que mantém o status quo. Fadados ao apocalipse por motivos ambientais. Como poderíamos estar mais distópicos do que agora? De todas as características que identificam as distopias, a mais fortalecida na comteporaneidade é a ausência de esperança. Esperança no futuro, em um futuro melhor. Como poderíamos viver sem estar presos aos mecanismos distópicos? E se o desvinculamento de tais mecanismos é inviável como acreditar que eles poderão nos levar a uma realidade melhor? Porque devemos nos sentir compelidos a buscar libertação quando a liberdade não direcionaria a nada?

É a ausência de esperança a condição necessária para o estabelecimento de realidades distópicas, doentes, em que a organização social perde seus objetivos e funções e os indivíduos se tornam apáticos a ponto de se renderem à passividade. Por outro lado, sem se submeterem a estas condições distópicas como poderiam enfrentar a realidade do mundo? A edição desta quinzena analisa alguns dos produtos de entrenimento que tratam da temática das realidades distópicas. Nossos artigos visam a identificar as críticas nestes discursos e as possibilidades de quebra com o comportamento criticado. Mais tangencialmente, como estes comportamentos se apresentam na cobertura midiática.

Há uma pílula vermelha por aí? Podemos viver na ilha dos selvagens? É possível achar a saída do labirinto? Os divergentes/resistentes conseguiriam vencer o sistema? Como recuperar os sentidos da linguagem? Existe mundo além da distopia?

Há esperança? Bem vindo a edição 159!

Andréia Moura
Editora-Chefe do Canal da Imprensa