Carta Capital não tem vergonha de dizer que impeachment é golpe. Se define como alternativa ao pensamento único da imprensa brasileira, respeitadora da diversidade e defensora de um mundo mais justo.

Luciana Ferreira

Falar de Carta Capital é colocar de lado antagônico sua aparente arqui-rival, a semanária Veja. Entretanto, o objetivo aqui, não é mostrar os dois lados de uma mesma moeda, até mesmo porque nesta edição, o caro leitor desavisado ou que ainda não teve curiosidade ou tempo para realizar uma leitura das demais análises, pode recorrer ao cardápio do Canal da Imprensa e se deliciar com a reflexão sobre a postura da revista Veja frente ao impeachment da presidente Dilma.

Pois bem, deixemos de conversa e vamos então ao que de fato importa: analisar como Carta Capital abordou o golpe em forma de impeachment. Antes, um parêntese para deixar claro que não objetivo manipular sua opinião, até mesmo porque não o considero tão ingênuo ao ponto de não ser capaz de engendrar sua própria conclusão partindo de diversas leituras. Estou certa?

De volta a Carta, é preciso lembrar que esta revista foi criada por Mino Carta. Jornalista que tempos atrás criou e trabalhou para outros veículos de comunicação, dentre eles nada mais, nada menos do que ela, a semanária não muito amiga de Dilma Rousseff, PT e Lula, Veja. Não estou propondo fazer uma biografia de Mino Carta, mas, considero relevante destacar que ele, segundo entrevista concedida ao site Vermelho.com, afirmou ter pedido demissão do grupo Abril após ser enganado por Roberto Civita. Ao que parece, mais alguém, além do Brasil, sofreu um golpe.

Carta Capital, em seu site, se define como “alternativa ao pensamento único da imprensa brasileira”, uma semanária que “respeita a inteligência do seu leitor e tem orgulho de afirmar-se progressista, respeitadora da diversidade humana e defensora de um mundo mais justo”.

Diante tal definição, quero destacar a palavra progressista, que segundo conceituação do site Cartamaior.com.br, trata-se de governos, forças políticas e instituições “que lutam pela construção de um mundo multipolar, que enfraqueça a hegemonia imperial hoje dominante, que colocam o acento fundamental na expansão dos mercados internos de consumo popular, na extensão e fortalecimento das políticas que garantem os direitos sociais da população, que elevam continuamente o poder aquisitivo dos salários e os empregos formais”.

Se buscarmos, não muito distante, no acervo de nossa memória, lembraremos que algumas das políticas de campanha da presidente Dilma Rousseff eram: ser contra qualquer mudança significativa da previdência social, criar o ProMedio – programa de bolsas que procura inserir estudantes pobres nas instituições de ensino privadas -, criação de novas unidades de saúde, dentre outras metas. Todavia, o carro chefe das propostas da petista era expandir uma das principais bandeiras do governo Lula, o Bolsa Família. Ah, sem falar na construção de 2 milhões de casas no projeto Minha casa Minha vida.

Enfim, coincidência ou não, as ideias de Carta Capital e Dilma Rousseff, vulgo PT, parecem se embalar na mesma nota. Então, ciente de possível semelhança, o impeachment para Carta seria legítimo ou mais um golpe político sofrido pelo Brasil? Vamos aos fatos?

Carta para Dilma

Basta dar um Ctrl+F no site da Carta Capital pelo tema impeachment ou golpe para encontrar uma série de reportagens, entrevistas, editorial, dentre outros gêneros que tratam do assunto. Uma reportagem, divulgada recentemente (21/10) apresenta a posição do parlamento alemão, que considerou o impeachment de Dilma como golpe e conspiração, chegando a considerar o novo presidente como “ilegal”.

Em entrevista concedida a Carta, o historiador Luiz Felipe de Alencastro confirmou aquilo que já havia previsto, em um artigo em 2009, que “a petista poderia tornar-se refém de Michel Temer” e de que a aliança entre os dois não daria muito certo. O pesquisador destaca ainda que o impeachment teve aparência de legalidade, mas com uma substância duvidosa.

Um editorial escrito pelo próprio Mino Carta, no dia 10 de outubro, afirma que o “Brasil começa seu regresso à condição de colônia, como manda a casa-grande e aprovam, vários moradores da senzala”. Segundo ele, a campanha do governo, “vamos tirar o Brasil do vermelho”, teria muito mais do que a intenção de realizar um plano de ajuste fiscal. Na verdade, a meticulosa intenção por trás da frase bonita é “liquidar de vez a esquerda vermelha”.

Prosseguindo com nosso menu desse exótico restaurante chamado Brasil, temos reportagens que mostram que Temer não é confiável, eleições 2016 ocorrendo no pior cenário desde o golpe de 64, a esquerda perdendo o poder, e mais uma série de materiais apontando para a necessidade da esquerda (progressista) se reinventar a fim de contornar a fragmentação ocasionada pelo Golpe Político (impeachment).

Não bastassem os títulos que destacam a necessidade da esquerda em se firmar, tem aqueles que mostram que com Temer o Brasil está declinando. Como a reportagem do dia 16 de setembro que aponta o fato de que o país perdeu reconhecimento diante o G-20: “a reunião do G-20 foi um triste lembrete do apequenamento do Brasil e das chances perdidas de cooperação mundial”.

Os títulos não param, mas seguem todos nessa mesma linha incisiva de que houve “golpe”, de que com Temer o Brasil declina e de que a esquerda precisa se reafirmar. Enfim, se por um lado, a parte que se afirma de direita, parece ter em Veja – pelo menos enquanto convém – uma forte aliada; por outro, os progressistas podem se ancorar na também progressista Carta Capital e buscar em suas reportagens refúgio e a voz então perdida no grupo Abril.

Quanto a nós, “meros” leitores, basta escolher seu lado e esperar. Porque com certeza, toda essa novela vai se repetir no “vale a pena ver de novo” do cenário político do país verde e amarelo.