Em seu discursos Dilma alega ter medo pela morte da democracia. Lendo Veja, temo pela morte do jornalismo

Ronaldo Pascoal

Quem diria que estaria vivo para ver o Brasil perder de 7×1 em casa, ou uma operação da Polícia Federal prender criminosos do colarinho branco? Quem diria que eu estaria vivo para ver todo um país mobilizado contra alguém? E quem diria ainda que eu viveria para ver uma presidente sendo deposta? Sou de 1994 e nesse pequeníssimo intervalo de tempo já vi veículos de comunicação usarem seu poder para disseminar conceitos e ideologias que contribuem para seus próprios interesses. Quem diria que eu iria estar vivo para ver o jornalismo ignorando e faltando com respeito ao povo, que ingenuamente crê? É, acredito que os livros de História terão que mudar. Nunca imaginei que meu coração seria forte o bastante para sobreviver a tantos golpes.

Desculpe o transtorno, mas precisamos falar da Veja. É notório o tamanho sucesso da semanária do grupo Abril. São 8,6 milhões de leitores na versão impressa e 160 mil acompanham a revista na versão digital, segundo estimativas do próprio grupo. Nas redes sociais são mais de 6 milhões de curtidas no Facebook, mais de 7 milhões de seguidores no Twitter e 370 mil no Instagram. Talvez o sucesso de Veja esteja em suas capas. É inegável que os publicitários da semanária fazem a tarefa de casa muito bem.

Ao longo dos anos Veja construiu sua posição política e fez uso dos recursos midiáticos para a disseminação dos mesmos. São várias as capas que se referem ao partido de esquerda de um modo, um tanto quanto cômico. Só este ano mais de 10 capas foram dedicadas a Luís Inácio Lula da Silva e a ex-presidente Dilma Rousseff. Podemos citar por exemplo a edição número 2469, de março deste ano, em que o ex-presidente Lula é apresentado com cobras no lugar de cabelo (referência à Medusa da mitologia Grega). Ou ainda a edição número 2473, de abril deste ano, em que a frase “Dilma em liquidação. Super queima de cargos. Corra! Últimos ministérios! ”, ocupa toda a capa. As chamas ao fundo do letreiro remetem as propagandas das Casas Bahia em época de oferta.

Também chama atenção a capa da edição número 2494, do mês de setembro, em que a estrela vermelha do Partido dos Trabalhadores aparece sem vida. É claro o desespero de Veja para acabar com o governo Dilma, basta observar os recursos usados quando a capa não trata de partidos políticos. São mais simples, com menos, ou quase nada de técnica.

É explícito em cada caractere da revista sua oposição ao governo esquerdista. Não que haja qualquer problema em ter tal posição. Mas e quando uma das revistas com maior tiragem do país é contra o povo? Seu lema segundo o portal publiabril.com.br é, “Informar, esclarecer e entreter o leitor, elevando seu nível de compreensão dos fatos, das tendências que sejam relevantes para a sua vida pessoal, profissional e sua compreensão do mundo”. Esclarecer? Elevar o nível de compreensão pessoal e do mundo? Se os publicitários de Veja fazem muito bem o dever de casa ao desenharem as capas, os jornalistas não acertam na hora de informar.

Linha editorial ou falta de interesse?

Se você é assinante da revista talvez não saiba, mas só entre janeiro e abril deste ano, 1365 casos de H1N1 foram confirmados e nesse intervalo, 230 pessoas morreram. Os dados são do Ministério da Saúde. Enquanto a doença preocupava o país, Veja se preocupou apenas em estampar o rosto do Lula nas quatro edições publicadas em abril. Tudo bem ser contra o governo e seguir sua linha editorial, mas como ficam os “os assuntos relevantes para a vida”? A pílula do câncer, estupro coletivo, Zika Vírus, foram assuntos que marcaram o ano de 2016, mas nas capas da semanária não havia espaço para eles. Veja, tudo bem usar praticamente todas as capas para apresentar o PT de forma negativa, mas onde ficam os 100 milhões de brasileiros que não possuem acesso ao serviço de coleta de esgoto?

Falta de interesse

Para não envergonharmos a revista com mais de 100 mil leitores na plataforma digital, vamos ficar apenas no que se refere ao “golpe”. No dia 15 de julho o portal de Veja divulgou a notícia sobre a tentativa do golpe de estado ocorrido na Turquia. Em uma primeira leitura trata-se de um texto isento, limpo, informativo, quase que admirável. O que não é admirável nas páginas da revista é sua oposição ao jornalismo. Em agosto deste ano, ao falar da tentativa de golpe à presidência da república, a revista mostra suas garras e de maneira sútil – aos leigos – e ofensiva, ataca o discurso de Dilma.

O pecado de Veja não está em dizer que o impeachment não é golpe, posto que não é. O pecado de Veja é não dizer que o Brasil sofre um golpe por dia, somando 188.340 golpes de que fomos colonizados – salvo os do dia 29 de fevereiro –. Enquanto a Veja gasta suas páginas para manchar um governo, as pessoas continuam sem saneamento básico, sem acesso à educação de qualidade e esquecidas na periferia. Não Dilma, não foi você quem sofreu duas vezes um golpe, o impeachment não é golpe. Golpe é o que suas páginas fazem com os leitores, Veja.

Em seu discurso Dilma alega ter medo pela morte da democracia. Lendo Veja, eu temo pela morte do jornalismo.