Ainda é responsabilidade dos grandes comunicadores dar ao público a opção de escolher o que deseja ler, no mínimo. Mesmo que isso esteja fora de moda.

Tábbta Rocha Morais

São 16h da tarde de terça-feira-feira, dia 16 de agosto. Meu deadline é meia noite do dia 17 e aqui estou me enfurecendo um pouco mais após cada matéria lida no Estadão sobre as tão esperadas Olimpíadas. Imagino o quanto os jornais ansiavam por esse evento para parar de publicar sobre corrupção no Brasil e poder corromper internamente mais um pouco do jornalismo brasileiro.

Acompanhei as publicações do Estadão pelo impresso primeiro, e quando decidi entrar no site, a primeira coisa que reparei foi no quadro de medalhas fixado na página. Quadro em que o Brasil está posicionado no 21° lugar com apenas três medalhas (até agora). Até então, nenhuma diferença entre o site do G1 ou da Folha de São Paulo que também dedicaram espaço para o quadro. Aliás, ouso dizer (na base do achismo) que todos os outros veículos do Brasil também fizeram isso.

Deve ser ótimo para os leitores diários ficarem relembrando todo tempo que seu país não estará no grupo dos melhores ao final do evento. Além disso, após cada atualização a página dá ênfase a uma nova manchete sobre tal atleta, tal modalidade ou tal país. A quantidade cansativa de reportagens e fotos sobre os esportes e atletas olímpicos que o Estadão publica – e ele não é o único – desde que os jogos começaram, revelam um interesse por esportes que o veículo ainda não havia demonstrado. E o pior é que ele dá a entender que é disso que os brasileiros estão falando, que é disso que nós queremos saber. Que tudo no Brasil e nas Olimpíadas é lindo e que nós concordamos com tudo.

E para não esgotar as notícias sobre as olimpíadas, até a vida pessoal dos atletas virou grande reportagem.

Antes de explicar o motivo de eu culpar, em parte, o jornal diário O Estado de São Paulo pela disseminação dessas idéias hipocritamente patriotas das quais eu discordo, gostaria de deixar claro para todo e qualquer ser humano que discordar de mim – com todo direito – que eu considerei sim a importância dos Jogos Olímpicos para a economia. Claro que eu considerei os ganhos que o Brasil ainda terá nesse evento. Sim, eu também considerei a importância dos esportes, o esforço dos atletas e tudo o mais que o governo, a COI e todas as pessoas a favor dos jogos usam como argumento para defender a realização das Olimpíadas no Brasil.

No entanto, um fato não muda o outro! Não nesse caso.

A culpa é do Estadão por fazer seus leitores acreditarem que ele é um veículo diferenciado. Por nos empolgar com a coluna do Fábio Porchat dizendo: “Fora Cunha!” e depois trocar as notícias que precisamos de fato saber, por pautas que TODOS os outros veículos também já publicaram.
O jornalismo do Estadão está trilhando o mesmo caminho hipócrita de alguns veículos direitistas cujo único mérito que possuem como fator de crescimento é a ignorância política dos leitores. Não é novidade alguma que a mídia pauta o assunto que muitos brasileiros vão abordar no café da manhã e, portanto, ainda é responsabilidade dos grandes comunicadores, dar ao público a opção de escolher o que deseja ler, no mínimo. Mesmo que isso esteja fora de moda.

A página inicial do Estadão na internet não descansou um dia sequer das manchetes de cunho olímpico. Mas todos os outros jornais também fizeram o mesmo. Não é mais uma questão de linha editorial, mas de ética jornalística básica. O andamento do impeachment e da operação Lava-Jato não perdem importância frente à realização das olimpíadas. Mas a culpa da ignorância e alienação política da massa brasileira não é só do Estadão. Claro que não!

A culpa é nossa porque fingimos satisfação e alegria quando os estrangeiros chegaram e esquecemos de todas as críticas que fizemos à organização do evento, aos gastos etc. A culpa é nossa porque tentamos, do dia para a noite, nos transformar em apreciadores de esportes que sequer são conhecidos no Brasil.

Nós mesmos abrimos mão de saber sobre o que diz respeito ao futuro de nosso país. Reclamamos porque o feijão está mais caro, mas damos as costas para as notícias que têm influenciado o aumento nos preços; e tudo isso pra saber quantas medalhas os outros países estão levando. E o Estadão, assim como os outros, só incentiva esse show de notícias olímpicas.

Quando eu era criança e pedia algo à minha mãe alegando que queria porque todo mundo tinha, ela me olhava bem no fundo dos olhos e dizia: “Você não é todo mundo, você é melhor!”. Baseada na filosofia de vida da minha mãe, o Estadão foi melhor que os outros por muito tempo, mas se igualou assim que colocou as manchetes políticas na parte mais baixa de seu portal.

Sempre vai existir um grupo que quer saber sobre a Lava-Jato, a alta do dólar, ou o Impeachment de Dilma. A responsabilidade jornalística de informar deveria ser mantida em respeito a esse grupo que não quer ser como todo mundo.