O cenário político da Colômbia foi pauta da mídia internacional antes, durante e depois da votação para o acordo de paz entre Estado e Farcs. A imprensa, contudo, nem sempre vê a questão do ponto de vista dos colombianos. Nesta edição do Canal da Imprensa, Ana Flávia conversou com a estudante de direito Juanita Hernández. Ela é colombiana e estuda na Universidad Industrial de Santander.

Canal da Imprensa: Com 52 anos de conflito, finalmente houve uma oportunidade de paz. Para nós, no exterior, se tem a impressão de que o povo colombiano deixou esta oportunidade de lado por rancor. Qual a visão de alguém que vive e conhece essa realidade de perto?
Juanita Hernández: Não é que os colombianos tenham deixado uma oportunidade pelo rancor que há. Talvez uma parte da população até pense dessa forma, mas a realidade é que este processo de paz não representava precisamente a paz. A paz ainda está ali, a paz se constrói diariamente em cada lar, no interior de cada pessoa. O que aconteceu no dia 2 de outubro foi que uma grande parte da população colombiana disse que não estamos de acordo com o que o governo tem discutido com as FARC desde o encontro em Havana, Cuba. Não estamos de acordo com as decisões que o governo colombiano tem tomado. Dizer “não” ao processo não quer dizer que os colombianos digam “não” a paz, mas sim que os colombianos consideram o acordo uma armadilha, há coisas mais explicadas, escondidas. Predominam interesses pessoais de determinadas pessoas públicas.

Canal: O acordo supostamente propunha justiça e reparação às vítimas além da permissão para que as Farc pudessem fazer política sem usar armas. O texto inclui um plano para o desenvolvimento agrícola integral, dando aos ex-guerrilheiros acesso à terra e a serviços, além de criar uma estratégia para a substituição sustentável de cultivos ilícitos. Qual sua opinião quanto as condições e tópicos do acordo?
Juanita: Estou de acordo com que as Farc recebam participação política, afinal de contas, foi dito a eles: entreguem as armas e lhes daremos poder. Eles usaram armas pois esta foi a única forma que encontraram para conseguir poder, influenciar nas decisões públicas e políticas. Por isso, no acordo é pedido que deixem as armas para que possam ter essa participação que sempre quiseram. Sendo assim, concordo que participem, que tenham voz, se candidatem as eleições do congresso, que possam formar seu próprio partido da forma que quiserem. Um exemplo de como isso funcionou foi durante o governo de Betancourt, quando criou-se o Movimento 19 de abril (M19).

Canal: A mídia colombiana teve sua responsabilidade dentro dos resultados?
Juanita: A mídia influenciou de grande maneira porque as pessoas acreditaram no que os meios de comunicação escreviam, no que viam facebook ou em outras redes sociais. Então, por meio do facebook, por exemplo, era espalhada uma informação que não era precisamente verdadeira a informação do acordo e as pessoas acreditavam nisso e a decisão de voto foi influenciada. E a influência não se limitou apenas na hora do voto, mas também na não aceitação da opinião e do ponto de vista de outras pessoas.

Canal: Qual a possível razão pela qual a taxa de abstenção (63%) foi tão alta? Isso pode ser considerado um descaso ou apenas é difícil para os colombianos perdoarem os acontecimentos deste meio século?
Juanita: No momento das eleições existia sim muita indiferença por parte das pessoas. Na Colômbia sempre existem privilégios para aqueles que votam, pois infelizmente os cidadãos preferem vender seu voto do que votar de forma consciente. Porém, durante esta eleição o voto se limitava a apoiar ou não apoiar as mudanças que iriam acontecer e muitas pessoas não se importaram com isso e resolveram não votar, afinal de contas tinham um dia de folga, não ligavam tanto para as mudanças que poderiam ocorrer e não estavam ganhando nada com o ato de ir votar, como geralmente acontece.

Canal: Depois do “não”, como está a situação atual do país?
Juanita: Eu acho que atualmente, depois do não as coisas tem mudado para o bem. A começar, quando se soube o resultado da eleição existia muito ceticismo em relação as FARC,se continuariam se reunindo com o governo, se haveria ainda um diálogo, se criariam novos critérios, novas cláusulas. Porém, agora com o novo texto corrigido sobre o acordo pode-se ver que era preciso que o “não” ganhasse para que novas opções fossem integradas ao acordo. Se o “sim” tivesse ganho, muitas opiniões, muitas vozes teriam sido apagadas.