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TPI (Tensão Pré-Informação)

Emerson Amaral

Cinco horas da manhã. A cidade do Rio de Janeiro está acordando. A equipe do Bom Dia Brasil se dirige para os estúdios do programa. Dentro de duas horas o jornal vai ao ar. Nesse momento não importa se o dia será bom para os profissionais envolvidos na produção. Tudo o que importa é que o tempo seja suficiente para preparar os últimos detalhes da edição, sem perder um só fragmento de informação procedente da madrugada no Brasil e noutros lugares do mundo.

Diretores de TV, redatores, produtores, repórteres e apresentadores vivem permanentemente o famoso "clima do ao vivo", conscientes de que nada pode dar errado. O produto final é o resultado do sacrifício de dezenas de pessoas envolvidas na produção do programa. O telespectador não tem idéia do que um profissional que lida com este tipo de veículo é capaz de fazer para levar a informação mais precisa ao telespectador. Sem esquecer que tudo tem que vir revestido de estética auditiva e visual.

A "tensão pré-informação" do Bom Dia Brasil é uma referência clara de situações vividas diariamente na televisão feita ao vivo. O jornalista, responsável pela veracidade da notícia divulgada sofre a descarga de tensão exigida pela concentração necessária a cada acontecimento, vivendo-o como se fosse parte de sua própria vida. Sem essa empatia, não poderia descrever com exatidão a realidade captada pelas câmeras. 

Mudanças bruscas no estilo de vida juntamente com a falta de atividades físicas regulares, horas insuficientes de sono e alimentação inadequada são os principais fatores apontados como vilões da qualidade de vida do jornalista, segundo pesquisa realiza pelo Grupo Lipp, que classificou a profissão como a quarta mais estressante da sociedade moderna.

A dinâmica dos bastidores do telejornalismo tende a envolver não apenas apresentadores e repórteres. Câmeras, iluminadores e diretores que vivem sempre cheios de adrenalina produzida pelo estresse diário também fazem parte do corre-corre. Todos dependem de todos. Mas ninguém está disposto a saber qual o estado físico ou mental de ninguém no momento da apresentação. 

Existe uma espécie de absoluto respeito ao telespectador, que traz uma atitude de sacrifício coletivo para que tudo saia perfeito. É nessa hora que se ouvem palavras de alerta em forma de gritos (xingamentos se preciso), "atenção, luz, câmera, ação"; para em questão de segundos se exigir uma total concentração. 

Se o programa for no estúdio, pode-se contar com o recurso do teleprompter, famosa maquininha de reproduzir o texto da narração que fica diante dos apresentadores em um jogo de espelhos não captados pelo telespectador. Mas quando a transmissão é externa, a ansiedade é dobrada, pois o próprio "clima de rua" é absorvido pelo repórter que passa a narrar os fatos, sob a influência e a emoção do local, geralmente com um texto decorado que nem sempre sai exatamente como ele pretendia.

Cada vez mais as situações tensas do dia-a-dia levam os jornalistas a uma vida sedentária, gerando conseqüências graves. Recentemente, em Natal, no Rio Grande do Norte, um repórter de televisão foi encontrado morto após se atirar diante de um trem em movimento. A família de Inaldo Farias, de 45 anos, justificou o fato como resultado de uma vida de tensão e desequilíbrio, muitas vezes provocada pela sua "paixão pelo trabalho", ligada a uma vida desregrada. Farias atuou mais de 20 anos como repórter policial. Ele acompanhava crimes, rebeliões, fugas e absorvia todas as tensões que sua função exigia. 

Para a psicóloga Marilda Lipp, presidente do Centro Psicológico de Controle de Stress de Campinas (CPSC), o jornalista de televisão que trabalha com programas ao vivo tem um índice de ansiedade tão prejudicial à saúde quanto os controladores de vôo, juízes de trabalho e policiais, consideradas as funções mais críticas da sociedade atual. 

Diferente das mulheres que podem saber antecipadamente seu ciclo pré-menstrual e viverem sua TPI (tensão pré-informação) de maneira mais saudável, o comunicador de televisão não tem muito que esperar, porque o seu "ao vivo... em cores" pode ser agora. Neste mundo dinâmico e globalizado quem não tem prazer na TPI, não sabe verdadeiramente o que é viver online. Afinal, nesta correria pela informação real, para o jornalista, chegar à frente é o que interessa. Se possível com saúde.

                                        



criação: lisandro staut