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Jornalistas no divã

Rômulo Gomes

Vida de jornalista não é normal. Trabalham todos os dias. Viajam. Vigiam. Pesquisam. Passam noites em claro para conseguir um furo. Acordam tarde. Dormem muito tarde. Comem pouco. Aquele pedaço de pizza fria, suficiente para continuar o trabalho. Estão sempre onde acontece algo de interessante. Algo que valha a pena para os leitores. Devem procurar, apurar, escrever e aprontar para a impressão uma notícia em torno de seis a oito horas.

Vida de jornalista não é normal. Trabalham todos os dias. E, todo o dia sai uma nova edição do seu jornal, não é mesmo? Parece mágica isso acontecer não é? Eles viajam. Como será que conseguem estar nos lugares em tempo e mesmo assim publicar uma matéria no dia certo? Façanha? Eles vigiam. Muitas vezes esperam um simples apagar de luzes ou monitoram os mais insignificantes movimentos na residência de uma personalidade envolvida em um escândalo pretendendo arrancar a notícia inédita da semana para o seu jornal.

Depois eles dormem. Bem, será que dormem mesmo? Como a notícia vai sair impressa no jornal? Pois é, eles não dormem muito. E na hora de comer não dá pra tomar o leite de magnésio ou mastigar vinte vezes os alimentos como o gastroenterologista, aquele especialista em distúrbios gástricos que ele sempre visita, mandou pela quarta vez. Como passou a noite "vigiando" a notícia, agora vai terminar o trabalho, por isso se despede da esposa - agora eles têm - e volta para a redação. É hora de conversar com o chefe de redação para explicar porque extrapolou o limite para entrega da sua notícia, isto é, o deadline.

Vida de jornalista não é normal. Logo, pressupõe-se que sua saúde seja da mesma natureza. Os profissionais que trabalham em jornais diários têm uma dificuldade enorme de cuidar da sua saúde. Não existe regularidade na vida do profissional de uma redação. Sua vida é para a notícia, que o alimenta e o sustenta. Porém, as conseqüências deste estilo de vida nem sempre são pensadas.

Não é comum um articulista escrever de forma pessoal, mas devido à circunstância desta edição, faz-se necessária uma exceção. Razão? O próprio jornalista que lhes escreve está com uma gripe insuportável, superada agora, no final da edição. Entretanto, a vontade de reportar e a necessidade de informar o público é maior. Pode parecer hilário, mas as circunstâncias atuais do jornalista que aqui escreve, são as mesmas da realidade retratada neste artigo. Eu simplesmente estou doente. 

Mas não é uma coisa que me martirize, entretanto que merece ser repensada e reconduzida de acordo com as perspectivas do futuro. Um agravante, comum a muitos jornalistas, é a sobrecarga de trabalho a que muitos profissionais são submetidos. Dois ou três empregos são comuns para grande parte dos jornalistas.
 
Parafraseando Gabriel Garcia Márquez, pode-se dizer que a notícia é a força matriz de um jornalista. Sendo ele "sedento pela notícia" , como escreveu o poeta e jornalista, busca de todos os modos conseguir o seu furo, mesmo que isso venha comprometer sua saúde. Por isso não é incomum ver redações infestadas de pessoas com distúrbios no sono, além da alta carga de estresse que recebem.

Aliás, esse é o problema dos principais jornalistas dos diários atualmente. A cobrança de suas matérias e a falta de tempo disponível se tornou um dos grandes causadores do estresse nas redações. Alberto Dines, na época em que esteve no Jornal do Brasil, já havia doze anos que trabalhava como o chefe de redação tentou resolver as antigas dissensões entre Marina Colassanti e Celina Luz, por meio de psicanálise. Ele era um entusiasta desta técnica. Mas não deu certo. Foi ainda demitido por ser acusado por Nascimento Brito de ser o causador das brigas na redação.

Ricardo Noblat, em sua obra, A arte de Fazer um Jornal Diário, menciona as lutas travadas pelo jornalista para conseguir a sua notícia. Neste ínterim ressurge o pensamento de Garcia Márquez, que ressalta a relevância da notícia, a ponto de exigir o máximo do jornalista para divulgá-la. São muitas as horas dedicadas vigiando a notícia e poucas a saúde do noticiador.

Os problemas relacionados a uma publicação diária que vão desde a pesquisa para a pauta até os contratempos do profissional que cuida dos componentes químicos para a impressão do jornal. Nestes casos, o desgaste físico é inevitável. Pode-se ter desde um pequeno estresse pela pesquisa rápida a um sério acidente com os responsáveis pela linotipia. Vale ressaltar, que essa necessidade é diária. Com isso os riscos aumentam.

Cuidar de si mesmo é uma máxima que deveria ser respeitada e cultivada por todos. É certo que os conceitos marxistas afirmam que o capitalismo é o responsável pela negligência do trabalhador para com a sua saúde. Desta forma, se você não produz, não recebe. É o seu dinheiro em jogo. É a sua sobrevivência.

Além disto, o complexo papel social do jornalista não se limita à transmissão da informação. É de caráter imprescindível. Portanto, até onde o jornalista deve se comprometer com a profissão? Se você é um simples leitor, não se preocupe, seu jornal estará "quentinho" na próxima manhã. Se for um jornalista, cuide da sua saúde. Afinal como disse, é sua.


                        

  

criação: lisandro staut