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Quanto pior, melhor

Gabriel Ferreira


Imagine se o mundo da mídia fosse dividido em dois. Num lado viveriam os jornalistas que se esforçam para ter uma vida saudável praticando esporte esporadicamente, levando uma dieta equilibrada e tentando manter bons relacionamentos com todos os que vivem ao seu redor. Do outro, os que só pensam no trabalho. Trabalham para passar o tempo. E o trabalho é preferível ao tempo investido com a família e o lazer.

Ironicamente, este quadro não está longe da realidade. Porque apesar de uma fronteira física não existir para separar jornalistas, podemos ver esta divisão entre comunicólogos distribuídas pelo globo terrestre. Para uns, o sucesso na vida está em cuidar da saúde tendo uma boa alimentação, bons relacionamentos e alguns exercícios. Para outros, isto é secundário e inútil.

O cuidado quase inexistente e inconstante com a saúde faz com que muitos jornalistas se considerem bem melhores do que outros. Melhores "caçadores de conhecimentos escondidos" ou "conhecimento revelado aos mais aptos". É preciso ter estirpe de lutador. E para isso uma pequena úlcera ou uma inofensiva gastrite ajudaria na conquista da medalha de "jornalista mais dedicado". É assim que mostram o seu desempenho para com a profissão: adoecendo e morrendo por ela, e graças a ela. Amém!

Redações infestadas de dióxido de carbono, proveniente de charutos e cigarros, fazem com que o estresse esteja à flor da pele do fotógrafo que ainda não revelou o filme, o repórter que está preso no tráfego e até com o barulho que o rodo da faxineira faz ao percorrer os corredores do veículo.

Mas se compararmos um jornal e um hospital seria possível perceber que ambos têm rotinas semelhantes. Ambos não se preocupam com o previsível. A matéria mais escandalosa vai para a manchete e o caso mais grave tem prioridade na UTI. Acontecimentos normais são enviados para outra editoria e casos menos urgentes são transferidos para outra clínica.

O antídoto indesejável

Tanto jornalistas como médicos trabalham com um sentido de urgência e de preferência que outras profissões não conhecem. Na mídia o deadline é o tirano que impõe limites e esforços. Nas salas de cirurgia não existe tempo para terminar, mas existe a obrigação de usá-lo devidamente, pois um segundo mal usado pode trazer sofrimento permanente ou até a morte. Ambos lidam com pessoas e, nos dois casos, o erro pode trazer conseqüências graves. 

O problema é que os jornalistas não se preocupam com a saúde e não percebem que são os próximos a ocupar os leitos vazios do hospital. Equilíbrio total em tudo o que se faz seria o antídoto que os jornalistas dispensam. Esta tecla já foi apertada mais vezes em suas mentes do que a tecla enter de seus computadores. Insistem em deletar esta informação realmente preciosa a fim de poderem continuar a informar o mundo.

O cantor português, António Variações, deixou uma frase para os jornalistas numa de suas músicas: "Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga". A palavra que realmente falta para a vida de um jornalista é priorizar. O que lhe é mais importante: a vida ou a profissão? Muitos ainda não souberam responder a esta questão que é tão simples como dois e dois são quatro.

Sem vida não há trabalho. E sem uma vida com prioridades os jornalistas não duram muito tempo. Mas por outro lado, se calhar, é isto que a mídia gosta. De buscar sempre o novo. Mesmo que isso implique a busca de novos jornalistas, para substituir os velhos, ou melhor, os mortos. A piada é que a diferença entre um médico e um jornalista é que o médico se acha Deus e o jornalista tem certeza que é - até o dia que morrer.

"Se eu morrer fazendo o que gosto me sentirei realizado." Provavelmente foram os jornalistas que proferiram este absurdo, porque muitos já bateram nos portões do cemitério mais cedo do que deviam.

                    

criação: lisandro staut