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Jornalismo em forma

Vivian Vergílio


O personagem Cristiano, de Celebridade, vivido pelo ator Alexandre Borges, representa uma grande parcela da população que é protagonista no tal mundo capitalista. Cristiano é mais um daqueles que dá lugar primeiro à obrigação e depois a diversão. Dá o sangue pelo trabalho. É um típico personagem que, quando se refere ao seu trabalho, pode afirmar que não tem tempo "nem para respirar" - nem para comer, se exercitar, descansar, etc - enfim, não tem tempo para desfrutar o que todo cidadão tem direito previsto pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Mas como já disse, ele só representa uma realidade. A sorte dele é o filho Zeca (Brunno Abraão), que está sempre lembrando o pai que só trabalho não enche a barriga - talvez Cristiano se esqueça disto porque sua capacidade mental já foi diminuída pela ação depressiva da bebida alcoólica.

Atualmente, o mundo tem formado mais zecas do que cristianos. Os zecas estão se preocupando mais com a sua vida. Mesmo assim os cristianos que sobraram estão sofrendo com os abalos na saúde. Os zecas por sua vez, têm crescido e representado a nova de geração de jornalistas que estão emergindo no mercado. Mas num âmbito geral a coisa não tem andado muito boa para a maioria.

Como vai a vida?

A jornada de trabalho diária é de no máximo oito horas - salvo negociação coletiva. Neste caso, pode-se dizer que um trabalhador comum acorda às 5h30, viaja 1h30min de ônibus até o trabalho. Bate-cartão às 7h, tem meia hora de almoço e às 15h está saindo de seu expediente. Convenhamos que esta é a vida de alguns, mas como o mundo não pára e as luzes de Las Vegas não se apagam, sempre haverá um homem mascarado na escuridão defendendo a causa dos fracos e oprimidos, enquanto a cidade dorme.

São os jornalistas de plantão na Câmara, informando-se sobre decisões que estão sendo tomadas à meia-luz. Enquanto isso, do outro lado da cidade, num prédio antigo de esquina, as máquinas não param de rodar e morcegões andam de um lado para outro buscando, analisando, digitando, imprimindo e despachando informações que ás 7h, qualquer trabalhador "comum" poderá comprar em qualquer banca em qualquer lugar. E a informação ainda está quentinha!

Haja cabeça pra tantos dados, idéias e notícias! Ainda bem que o cérebro humano pensou no papel, na tinta, na prensa, no arquivo. Porque uma massa cinzenta sozinha não poderia armazenar tanta informação disponível neste mundo que agora vive o SPA (Síndrome do Pensamento Acelerado). 

E nem conseguiria! De acordo com pesquisas realizadas, uma noite mal dormida compromete a memória, a atenção e o equilíbrio, além de diminuir a atividade cerebral e alterar o humor. Isso sem contar outros males a curto e longo prazo, como o descontrole do apetite, a depressão e o estresse. Certo estava Benjamin Franklin: "Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer".

A saúde vai bem, obrigado!

Pensando assim, os profissionais que estão surgindo têm rompido com estes moldes de jornalista despreocupado com a saúde. As prioridades do mundo de hoje refletem profissionais preocupados com a condição física e mental. Afinal eles devem se preocupar em trabalhar no dia seguinte, não é mesmo? Para isso, é cada vez mais comum que se preocupem menos com o trabalho e mais consigo mesmos.

Nikos Kazantzakis, escritor, citou a seguinte frase: "Dize-me o que fazes do que comes e eu te direi quem és". Parece que só depois de casos de intoxicação alimentar, doença da vaca louca e gripe do frango é que as pessoas começam a pensar como estão nutrindo suas células. 

As manias de fast-food e self-service têm contribuído para todo brasileiro dar aquele "jeitinho brasileiro" na hora que fome aperta e o corpo clama por nutrientes. Geralmente estes clamores não são atendidos e os resultados vêm logo: gastrite, azia, úlceras no estômago, disfunções orgânicas, problemas cardíacos, inflamações e outras doenças que enchem os prontuários da pós-modernidade. Tudo isso, unido ao sedentarismo causado pelo elevador, computador, televisor causa depois dor, dor, dor.

Nestes últimos anos, os fiéis seguidores do personagem, Paulo Cintura, formaram o grupo da "geração saúde". Eles estão correndo por aí nos calçadões com seus cães, consumindo alimentos mais naturais, tomando banhos-de-sol com seus gatinhos peludos, deixando a água purificar por dentro e por fora, sorvendo o ar com a mesma vontade dos canários engaiolados quando cantam e dormindo com as galinhas. Mas é assim mesmo: ou a gente aprende por conta própria ou aprende com a irracionalidade dos outros.

Este fenômeno não deixa de ser notícia. E para os jornalistas, que desejam cobrir este fato por muito tempo, resta tomar um bom desjejum depois das horas mais que merecidas de repouso, vestir uma roupa mais light, trocar a água do peixinho-dourado, soltar as galinhas, tirar o leite, escovar o gato e correr com o cachorro, cantando a música do canário, é claro. 

                                          

criação: lisandro staut