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Medo da realidade

Neanis Lutzer


Carandiru, de Hector BabencoÉ notável a diferença entre o cinema brasileiro e o estrangeiro, mais especificamente, o norte-americano. Ressalta-se, além do aspecto qualitativo, a presença de certas tendências culturais divergentes.

As indústrias cinematográficas geralmente querem transmitir ao consumidor um pouco do que ele quer ver e ouvir. No entanto, têm surgido no mercado filmes que buscam reproduzir a realidade do ser humano, levando o público a uma reflexão do mundo em que vive.

Ora, até que ponto chega a vontade do homem em querer ver algo do que ele mesmo quer fugir? Um trabalhador comum procura numa locadora filmes que o levem do mundo real para um imaginário. Assim, qual a viabilidade de se criarem filmes que busquem a realidade como fator principal?

O Brasil vem se adequando cada vez mais à modernidade e se apresentando capaz de criar produções que cativem a atenção do público. Parece que vem conseguindo. O Brasil desfruta hoje de conceito na mídia internacional. Carandiru (2003) e Cidade de Deus (2002) são exemplos vivos dessa tendência. Porém críticas surgem de alguns intelectuais brasileiros à brutalidade das cenas. E isso, não é realidade?

Em contrapartida, ao assistir filmes que priorizem a fantasia, tudo é lindo e tiramos até lições de moral. Mas quando um longa-metragem nos depara com a realidade, a nossa capacidade de pensar se altera. Assistindo a estes filmes, o público brasileiro percebe os pontos em que o País precisa melhorar.

É defensável que o cinema brasileiro recorra às cenas de violência. Afinal, se nós não nos apercebemos do que se passa em nosso país, filmes de fantasias seriam inúteis, servindo apenas para bloquear a capacidade de avaliar a sua vida social e política. 

Além disso, a estética brasileira se aproxima muito da européia, considerada cult. Isso cria valor no mercado. Quando o filme Cidade de Deus foi lançado, com a direção de Fernando Meirelles, as críticas foram muitas. O filme nunca participaria da premiação do Oscar, pois a violência e o realismo provocavam repugnância. No entanto, um ano depois recebeu quatro indicações e manteve o filme em cartaz nos Estados Unidos.

Só no Brasil, 3,3 milhões de expectadores assistiram ao filme, com 21% da venda total dos ingressos nos cinemas brasileiros em 2003. Não é de se admirar, pois o realismo cativa a platéia. 

Vale lembrar que violência, morte e sangue vêem-se na maior parte dos filmes, sendo alguns de maneira extremamente contra-indicada, pois apelam para os estereótipos. Carandiru, Cidade de Deus, Central do Brasil e outros filmes fazem simplesmente a sua parte na sociedade. Retratar um pouco da história e cultura da nação só faz tornar o povo mais consciente.

                    

criação: lisandro staut