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A política da tela

Ketielly Bahia

Analisando o processo histórico das eleições, verificamos que transformações significativas ocorreram no decorrer dos anos. Houve um tempo em que somente quem estava diretamente ligado à política participava do processo de escolha. Quando o voto tornou-se um direito de todos, tudo mudou, inclusive os recursos necessários para se ganhar uma eleição.

Antes existia a política de rua, cujos palanques e panfletos eram os principais meios de comunicação política. Hoje existe o que podemos chamar de política da tela, pois a mídia é a principal responsável pelas imagens dos candidatos que nos são transmitidas.

Para exemplificar o poder da influência da mídia, analisemos o ex-candidato às eleições 2002, o livre-docente Enéas Carneiro. Enéas lançou sua candidatura à Presidência da Republica pela primeira vez em 1989 pelo Prona (Partido da Reedificação da Ordem Nacional). Sua imagem - careca, barbas longas, óculos grandes - logo ficou nacionalmente conhecida.

Nessa época, Enéas dispunha de 15 segundos no horário eleitoral gratuito, para transmitir ao povo suas propostas de governo, enquanto seus adversários dispunham de vários minutos para o mesmo objetivo. Enéas chegava a falar cerca de quatro palavras por segundo. Era de se esperar que as pessoas não entendessem muita coisa, porém ele sempre fechava seus discursos com uma frase que logo ficou gravada na mente das pessoas: "Meu nome é Enéas!".

Enéas disputou mais duas eleições. Em 1994, quando dispunha de um minuto de discurso no horário eleitoral gratuito, chegando ao 3.º terceiro lugar nas urnas e em 1998, quando alcançou 2,14% dos votos, ficando em 4º lugar. Este ano, pela quarta vez, o cardiologista Enéas Carneiro se candidatou à Presidência, chegando a 2% nas pesquisas, porém renunciou a candidatura para se eleger a deputado federal, acreditando que no Congresso poderá disputar as eleições e ganhar.

Partindo do ponto de vista de que a mídia pode moldar desde as formas de se fazer uma eleição, até a postura dos candidatos, é fácil deduzir porque Enéas muitas vezes foi ridicularizado por uma parte da sociedade. Ele simplesmente não se encaixava no perfil de líder imposto pela mídia.

Seu radicalismo, sua indignação, suas idéias contrárias a certas formas de governo, ou mesmo a idéia de construir uma bomba atômica e seus projetos de independência econômica, foram armas usadas pelos meios de comunicação para que a sociedade o visse como um palhaço.

Talvez se os meios de comunicação tivessem dado um pouco mais de credibilidade ou mesmo um espaço maior ao ex-candidato nacionalista no horário eleitoral, ele não teria renunciado a candidatura, podendo até crescer nas pesquisas eleitorais. Tempo, na política da tela, foi o que faltou na candidatura de Enéas. Dificilmente ele alcançaria uma posição melhor do que as eleições passadas, mas quem sabe poderia ter exposto melhor suas intenções para o futuro do País.

                                        

criação: lisandro staut