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A culpa é nossa?

Fernando Torres

Intelectuais são chatos. Se julgam entendidos em qualquer assunto, tendem ao pessimismo e geralmente analisam um único viés do problema. Quando tocam no assunto mídia, a palavra-chave é manipulação. O discurso já se tornou repetitivo e enfadonho, mas convence leitores superficiais e desatentos. 

Um dos temas mais discutidos atualmente é a influência dos mass media no processo eleitoral. Dizem que os jornais fragmentam e espetacularizam o fato, noticiando-o da forma que melhor lhe interessar. E mais: omitem o que acham que não deve ser dito, transfigurando a democracia em uma ditadura mental. De acordo com esses teóricos, a mídia bestializa os receptores, transformando-os em uma legião de escravos, prontos a obedecer sem qualquer questionamento.

É bem verdade que os meios de comunicação, em especial a TV, influenciam o comportamento do eleitor diante do voto. Afinal, eles são a maior fonte de informação para a maioria da população. Manipulam? Sim, manipulam. É clássica a história da edição do Jornal Nacional no debate de 1989 - novamente em pauta sobre quem seria o culpado - o qual teria dado margem à vitória de Fernando Collor. Também é famosa a infiel cobertura que a Rede Globo fez do movimento Diretas-Já, disfarçando-o em uma festa de aniversário. Mas será que a culpa é sempre nossa? É impossível ver aspectos positivos dentro das coberturas jornalísticas?

Restrinjo-me a atual cobertura eleitoral. Nunca, pelo menos no Brasil, houve tanta informação sobre uma corrida presidencial. Praticamente todas as mídias, da impressa à online, colocaram como protagonistas de seus veículos os candidatos Lula, Ciro, Serra e Garotinho. Versões diferentes sobre o mesmo fato estão disponíveis ao eleitor preocupado em usar o direito ao voto. Basta folhear algumas páginas, escolher os melhores canais ou, para os mais modernos, clicar o mouse em busca de notícias.

Ainda falando do eleitor inteligente, é válido observar que ele nunca se contentará com a visão de um veículo apenas.  Ao contrário, procurará comparar as informações obtidas e, aí sim, chegar a uma conclusão racional. O mesmo eleitor também levará em conta a política partidária bem como a economia vigente no período histórico. Caso isso não ocorra - sejamos realistas -, possivelmente estará desinformado.

Mas insistem em dizer que a grande imprensa é um perigo à democracia. Esquecem-se de apontar os verdadeiros culpados, os verdadeiros estrategistas da manipulação. O que dizer dos jornais dominados por clãs políticos, como a Gazeta de Alagoas, há décadas no poder dos Collor de Mello? E o que dizer de ACM, que mesmo após ser cassado (?) não perdeu seu posto de adoração baiana? E os Sarney no Maranhão? E as pequenas cidades interioranas, onde duas famílias se revezam no poder há séculos? De quem será que eles recebem apoio?

Ora, é óbvio que o jornalismo muitas vezes abusa de sua liberdade. São aqueles "profissionais" rebeldes, contestadores, primordialmente sensacionalistas. Mas pelo ponto de vista político, a função jornalística tem valor democrático, sim. Apesar de a mídia deturpar e alimentar fantasias, o mundo seria ainda pior se não houvesse jornalismo. Simples: as denúncias ficariam restritas à uma pequena parcela da população, centrada no próprio umbigo. Desta forma, doa a quem doer, o jornalismo é um fator a mais - de muito peso - na sustentação da democracia.

                                        

criação: lisandro staut