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A verdade sobre Collor - 
Amor e ódio entre dois poderes


Fabiana Siqueira

"A mídia pôs e depôs Collor" - verdade absoluta ou sofisma da repetição popular? Não existe dicotomia entre o poder político e o midiático desde o fim da ditadura. Aliás, foi aí que o primeiro descobriu que seu fortalecimento depende do segundo. A barganha consiste em notícias de destaque por destaque nas notícias. E nesta troca lasciva de favores, perde o País em desenvolvimento e a profissão jornalística em ética.

Foi o que aconteceu no caso Collor. Já virou jargão popular dizer que o ex-presidente impedido foi concebido e "assassinado" pela mídia. Mas será que os portadores de tamanha sobejância conhecem seu conteúdo real? A mídia não criou Collor. Ela comprou o personagem que ele criou para si quando percebeu que "dava notícia". E já que todo bom brasileiro gosta de uma quimera, a mídia inventou a sua novela e ofereceu ao povo, que aceitou e gerou a audiência esperada.

Mas, afinal de contas, que mídia é essa? Veja, Folha de S. Paulo, Isto É, Jornal do Brasil entre outros meios de participação secundária mas não menos importante. Collor estabeleceu contatos amistosos com estes poderes, promoveu sua imagem, engordou os noticiários e alcançou seu alvo: ser presidente.

A Globo, ao contrário do que se pensa, apenas veiculou (sem inocência alguma, é claro), o que os meios já citados haviam pautado e produzido sobre o corrupto. A despeito disto, as acusações de parcialidade e manipulação não afetaram em nada o poder irrefutável da "senhora da comunicação". 

E quando o então presidente deixou de ser produtivo em termos jornalísticos, o que a mídia fez foi apenas divulgar o seu caráter putrefato, alimentando os noticiários outra vez. Não deixou de ser uma relação. Com direito a um divórcio bem dolorido, onde o poder midiático obteve maior lucro. Mas tudo bem, afinal, ceder (mesmo que obrigatoriamente) é saudável em qualquer relacionamento. Mesmo para este, que de saudável mesmo só teve as caminhadas televisionadas de Fernando Collor.

Afirmar que a culpa pela ascensão e queda de Collor é exclusivamente da mídia é atribuir a ele a característica de incapacitado. Porém sob certa ótica, Collor foi empreendedor e sagaz. Faltou-lhe ética, competência administrativa e idoneidade, perspicácia não. Porque manter uma relação tão intensa com a mídia não é para qualquer político. E que o digam os atuais presidenciáveis que ainda lhe enviam flores, bombons e pérolas. Muitas pérolas.


                   

criação: lisandro staut