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Realidade brasileira em livro francês

Rizza de Matos

Sobre a Televisão, de Pierre Bourdieu; (Editora Jorge Zahar; 143 páginas; R$22,00)

Não é novidade pra ninguém que a televisão é o meio de comunicação mais poderoso do mundo. O que atinge mais pessoas e automaticamente influência mais. A TV dita costumes, moda, tira e coloca idéias, decide qual notícia a sociedade precisa saber. Ela escolhe o que deve ser lido, ouvido e até visto pelos seus telespectadores.

Observando essa realidade, o sociólogo francês Pierre Bourdieu, publicou em 1996, Sobre a Televisão, um livro que explica com detalhes como funcionam as estruturas internas deste meio de comunicação que é símbolo do poder midiático.

Objetivos da TV

Sobre a televisão explica que entre os meios de comunicação a TV tem uma característica peculiar que é a homogeneização das emissoras, pois quanto mais parecida for a programação mais a disputa pela audiência é acirrada. Mais importante que informar é o número de pessoas que estão assistindo e qual é o tamanho do pedaço de cada emissora no bolo publicitário.

Para Bourdieu essas prioridades refletem em como as notícias são estruturadas, na relevância de cada fato e o tempo destinado para a exposição desses. Pois a TV é dominada não apenas pelos seus proprietários, mas pelo governo, pelos anunciantes e pela economia.

Por isso as notícias que vão para o ar seguem sempre as mesmas regras, no geral são acontecimentos que não causam a desordem social, que resultem na mesma opinião entre os telespectadores e a maioria são variedades, pois não podem confrontar com o pensamento de seus anunciantes e de certos grupos políticos.

Segundo o sociólogo essa situação revela uns dos tipos de manipulação usada pelas emissoras. Que é o uso do tempo. Ele levanta a questão de que se o tempo é valioso, porque não é usado pra expor fatos realmente relevantes. Partindo do pressuposto que a TV é para a maioria da população o único meio de informação jornalístico (principalmente no Brasil), isso a transforma em um monopólio de informação, ou seja, “se passou na TV deve ser importante”, assegurando esse pensamento as emissoras podem manipular através da veiculação de certas noticias, já que a televisão é símbolo de veracidade.

Essa credibilidade aumenta com os “furos” jornalísticos, pois exibindo a matéria primeiro as emissoras se consolidam no imaginário popular como sendo de confiança, ganhando mais telespectadores.

Quanto maior o número de pessoas que assistem, maior será a lucratividade das empresas de mídia televisiva, pois o grande número de audiência de um canal leva a valorização dos espaços publicitários. O livro denuncia que essa busca pela urgência e essa preocupação com o tempo nada mais é que a revelação dos interesses econômicos de cada emissora. A síndrome da urgência e a perseguição pelo furo fazem com que os jornais televisivos se tornem perigosos, colocando em risco a legitimidade da informação.

A busca pela audiência é contrária à democracia, pois essas pesquisas de opinião roubam o direito de julgar dos cidadãos, fazendo uma falsa elitização das emissoras, tornando os telespectadores em consumidores em potencial. Por meio das programações de grande audiência os consumidores, que deveriam ser livres, são pressionados pelo mercado. Os telespectadores estão submetidos à dominação desse meio de comunicação que deveria democratizar e favorecer uma diversidade de opiniões.

Bourdieu e a realidade brasileira

O livro foi escrito diante da realidade francesa, mas Sobre a Televisão retrata muito bem como a TV brasileira funciona. As denúncias sobre o que acontece atrás dos bastidores é o que acontece em quase todas as emissoras brasileiras, que são totalmente dominadas pelo sistema econômico.

Ao contrário do que acontece em alguns países a televisão brasileira dá um grande enfoque ao entretenimento e a banalização das notícias. E essa busca pelo primeiro lugar nas pesquisas de opinião as emissoras verde-amarelas explorem demasiadamente o sensacional, dramatizando os fatos e transformando a cultura em uma indústria.

Como disse Bourdieu, é preciso lutar pela autonomia não só das pessoas, mas de todas as estruturas que formam a sociedade, em especial as áreas da política e cultura, que sofrem diretamente essa influência do pensamento televisivo.