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Quem quer bacalhau?

Thaísa Elis

“Terezinha, uuuuhhh”. Mesmo que você tenha 20 anos de idade, todas as vezes que ouvir essa frase se lembrará do seu autor. Um senhor irreverente que abandonou a medicina para se tornar o “palhaço do povo” como ele mesmo gostava de se definir. Abelardo Barbosa de Medeiros, mais conhecido como Chacrinha foi o maior comunicador da massa no rádio e na TV entre as décadas de 50 e 80.

Agora que já temos o “palhaço”, faltam os demais componentes, para o circo ficar completo e só assim levar o respeitável público a fugir da realidade com gargalhadas, fantasias e desejos.

Em 1956, Chacrinha estreou na televisão com o programa Rancho Alegre na TV Tupi, onde interpretou um xerife numa paródia do wester americano. O sucesso desse programa foi grande e a partir dos anos 70, a emissora o colocou como apresentador do programa Discoteca do Chacrinha lançando alguns cantores da MPB e tendo como atração principal mulheres seminuas, conhecidas como as chacretes .

Agora o circo está montado e o picadeiro formado, o “palhaço não está mais sozinho, ganhou companheiras com nomes exóticos e chamativos, principalmente para o público masculino, como Rita Cadilac, Índia Amazonense e Fernanda Terremoto.

Em 1957 foi para a TV Rio e em 1968 contratado pela rede Globo comandando o programa de calouros Buzina do Chacrinha. Neste programa Chacrinha apresentava-se com roupas espalhafatosas, acionando uma buzina para desclassificar os calouros e empregando um humor debochado, utilizava bordões e expressões que alcançaram grande popularidade entre a massa.

“Vocês querem bacalhau?” Depois jogava bacalhau, pepino ou abacaxi ao público, que se sentia importante em receber tais presentes...Doce ilusão!

Em 1970, o velho guerreiro foi contratado pela Rede Globo e dois anos depois voltou para a Tupi. Em 1978 transferiu-se para a TV Bandeirantes e, em 1982, retornou para a Globo. Nessa época, o “velho guerreiro”, foi censurado e acusado de ser pornográfico e alienado, porém não se importava com as acusações e se defendia dizendo que sabia o que o povo queria para se divertir. “Mulher tem que ser boazuda, ter coxões e peitos grandes, porque homem só gosta de magra para casar, por isso escolher uma chacrete é uma tarefa difícil”, se explicava Chacrinha.

Desde então, mulheres despidas e vulgares se tornaram atrações principais nos programas de TV e o pior dessa situação é que outras mulheres sem identidade almejam ser como as “chacretes”. Essa descrição pode ser bem substituída pela definição palhacetes, já que se comportam como tais.

O respeito às famílias, ficou de lado quando Chacrinha incluiu sua irreverência e palhaçada nos lares brasileiros fazendo com que a massa se julgue feliz e respeitada em programas de baixo nível.” Vai um bacalhau ai”?

Chacrinha faleceu em 1988 de ataque cardíaco, porém como o guerreiro já dizia, “Na televisão, nada se cria, tudo se copia”. Realmente, ele estava certo, a programação televisa continua da forma como ele a deixou ou em condições até pior. Basta sentar em frente a um televisor e “degustar o bacalhau podre” que é jogado de presente ao público todos os dias.