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Telas cheias, mentes vazias

Andréia Moura

 

“Aquilo que guia e arrasta o mundo não são as máquinas, mas as idéias”. (Victor Hugo)

“Ratinho, eu quero é DNA, esse homem é o pai do meu filho sim”. “Márcia, esse homem me bate, mas é dele que eu gosto”. “Regina, minha mulher fica o dia inteiro vendo televisão e não faz comida pra mim”. Frases deste calão poderiam encher páginas e páginas sem nunca repetir a temática. Nos últimos tempos a televisão se tornou a “Brastemp” familiar. Se alguém quer lavar roupa suja, faz isso em cadeia nacional. A gama de programas especializados em resolver pendengas de família e de qualquer tipo, é grande e já toma boa parte da grade das redes televisivas. Por que programas deste nível causam fascínio tão grande nas massas?

Teorias. Posso explanar algumas. A era da informação, surpreendentemente, simplifica. Há tanto para ver, tanto para codificar, relacionar, interpretar que, conciliar tudo isso com as relações existentes anteriormente, “parece” difícil. A cada dia as pessoas passam mais tempo envolvidas com trabalho, com os aparatos tecnológicos, com o estresse, que falta tempo para viver de verdade, se relacionar. O pouco tempo restante desta “subvida” geralmente é dedicado à televisão. Ali, as relações, os princípios e a moral são redimensionados por intermédio das novelas e dos famosos programas de baixaria.

Muitas famílias se contentam em passar os momentos que poderiam dedicar ao convívio familiar consumindo indiscriminadamente televisão. Isso, de certo modo, simplifica as obrigações relacionais. Todos, juntos, se sentam à frente do formador-mor de opinião e, enquanto permitem o atrofiamento de sua capacidade de pensar e a massificação de suas idéias, “cumprem” um respeitável período de “vivência” familiar.

Ciclo vicioso

A ótica em que se passa a observar o mundo então, é o problema que está destruindo diretamente o alicerce da sociedade. A televisão utiliza seu poder hipnótico e massificador para transformar a mente e destruir a base da organização social, a família. A traição, o homossexualismo, a desonestidade, o sexo, o casamento, o dinheiro, são apresentados de formas pejorativas, desvirtuadas, e essas novas concepções assumem papel de verdades absolutas.

A confusão causada nas mentes, pela aceitação de tais conceitos, afeta diretamente as relações pessoais. Problemas de espécies diversas começam a surgir, desestruturando o equilíbrio familiar. Perdido tal equilíbrio expor as dificuldades em cadeia nacional não parece estranho, ridículo.

Ao ligar a televisão, as pessoas se deparam com essa exposição sem escrúpulos de problemas cada vez mais freqüentes em suas próprias vidas. Incorrem então em dois fenômenos que poderiam ser chamados de “projeção do eu” e “fuga da realidade”. Cria-se um ciclo vicioso. Ligando a TV, vêem suas realidades, seu temores, expostos na vida de outros. Assim, passam a assistir diariamente programas do gênero. Com o aumento da audiência, os produtores ampliam a gravidade dos casos apresentados e o tempo reservado à baixaria. Os telespectadores vão absorvendo mais e mais a realidade alheia, dificultando a restauração da estrutura relacional da família e agravando problemas existentes. Sem vislumbrar soluções para seus próprios casos, continuam assistindo esse tipo de atrações como fuga da realidade.

Incentivo à cultura

Esse ciclo justifica o jargão: “o ibope só sobe quando o nível desce”. É importante ressaltar, no entanto, que, assistir baixaria é também puramente uma questão de “bom-gosto”. Um gosto refinado advém de boa educação. Desde cedo é necessário introduzir nos indivíduos os senso crítico e ensiná-los a compreender a amplitude das relações e do mundo, o poder de manipulação da mídia. Sem recair na velha história de que tudo é culpa do governo e da falta de investimentos em educação, afirmo: gosto apurado é uma ciência a ser aprendida em casa. Algo que pais aprendem e passam aos filhos.

Incentivando a busca por boas leituras, boa música, lazeres que encerrem em si alguma cultura. Criando uma visão crítica de mundo, uma visão capaz de ultrapassar a mensagem hipnótica e atrofiadora da televisão. Não é ilusão crer que, a maioria dos lares brasileiros, faz da televisão o centro de entretenimento, a fonte de informação. Desta maneira, falta diálogo e, com as relações familiares seriamente modificadas pela televisão, fica difícil incentivar outro tipo de “conhecimento”, de visão. A televisão ocupa espaços no HD mental que poderiam ser dedicados a ampliação das capacidades intelectuais e relacionais humanas. 

Mentes enlatadas

Portanto, a TV simplifica realmente. Simplifica a mente. Logo a mente humana que, geneticamente, não existe para ser simples. A potencialidade mental do homem surpreende qualquer expectativa científica. Ele é capaz de administrar inúmeras tarefas e a diversificação de suas atividades, a expansão de suas relações, só o torna mais crítico, mais sensível e perceptivo, mais capaz. O estimulo mental através da pluralidade produz verdadeiro crescimento enquanto a simplificação televisiva do mundo tem caráter retroativo.

A capacidade de acompanhar um raciocínio mais elaborado, que exige tempo de reflexão, a articulação de inúmeras variáveis, uma visão não-linear do mundo, é diminuída mais e mais pelo uso excessivo da televisão. Perdida tal capacidade, o poder de análise de conteúdos e das ideologias atiradas aos montes pela TV, nada deve parecer mais interessante que observar a lavação de roupa suja alheia em cadeia nacional. Eis o motivo do fascínio por atrações deste gênero, o atrofiamento das idéias.