home |
 

A carta magna do capitalismo

Giancarlo Sorvillo

Antes dos portugueses chegarem, o Brasil era habitado por tribos indígenas que viviam numa cultura simples, sem muito luxo ou burocracia. Viviam em meio a natureza e caçavam para se alimentar, sem ficarem estocando comida em grandes armazéns para vender para tribos vizinhas e lucrarem com seus produtos. As mulheres faziam artesanatos para que a tribo pudesse usar as cestas, enfeites e outros artefatos utilizados pela comunidade.

No entanto, com a vinda dos navegadores europeus, as coisas mudaram um pouco aqui nas terras tupiniquins. Os portugueses “presentearam” os índios com espelhos, pentes de cabelo e enfeites de ouro. Os índios, que nunca haviam visto aqueles produtos, maravilharam-se diante de coisas produzidas por homens, aparentemente superiores, e lhes deram boas-vindas. Mas os conquistadores não estavam interessados em conhecer o estilo de vida simples e diferente dos nativos, apenas estavam ansiosos em explorar todas as riquezas possíveis do lugar, mesmo que para isso tivessem que escravizar os índios.

Finalmente, o capitalismo, que se define por “dinheiro como a base de tudo”, conquista mais um lugar no seu reino de oferta e procura, comércio e extravagância, onde tudo está fundamentado na ambição. Pode-se ver isso bem claramente na colonização do Brasil, que na verdade foi mais um sonho de consumo de reis e nobres sedentos por ouro e riquezas. No capitalismo é assim, você trabalha, explora os ignorantes, utiliza meios ilícitos para enriquecer e depois gasta tudo em roupas de marca, casas luxuosas, carros caríssimos e em coisas que na maioria das vezes não precisa.

Mas se antigamente o consumo era feito por meio de perigosas viagens marítimas com destino a terras cheias de ouro, mercados cheios de vendedores procurando chamar atenção para seus produtos, hoje em dia as coisas mudaram um pouco. Ou seja, o objetivo é o mesmo, mas as abordagens resumiram-se numa palavra: televisão.

Presente em 98% dos lares brasileiros, a televisão é mais do que produtos destinados a diversão e entretenimento de massa. No Brasil, ela é o lugar onde os brasileiros se encontram e se reconhecem culturalmente como brasileiros. Ela literalmente domina o espaço público, de modo que sem ela ou sem sua representação, torna-se impraticável a comunicação no país. Haja vista a Globo, que em muitos aspectos dita os acontecimentos políticos e sociais do Brasil, inclusive questões que formam a cultura do povo.

Mãe do capitalismo

Através desse domínio e influencia, a televisão se tornou o principal meio de comunicação utilizado pela publicidade. Desde 1950, quando a TV Tupi passou a funcionar no Brasil, por intermédio de Assis Chateubriand, propagandas de produtos começaram a ser veiculadas, embora com pouca criatividade. Todavia, com o passar do tempo a publicidade ficou mais prática, especialmente com a abertura de escolas e cursos de produção de propagandas e outras peças publicitárias. O resultado não poderia ser outro, uma explosão de comerciais nos intervalos das programações televisivas.

Porem, como se sabe, nem sempre a publicidade está muito interessada em promover hábitos corretos e saudáveis, mas apenas em manter a máquina capitalista funcionando. Um exemplo disso foi um estudo realizado em 2004 na disciplina de Nutrologia, ligada ao Departamento de Pediatria da Unifesp.

O estudo avaliou o conteúdo das propagandas veiculadas nos intervalos de alguns programas infantis e constatou que, para cada 10 minutos de propaganda, 1 minuto tem objetivo de promover o consumo de produtos alimentícios. Segundo a nutricionista responsável pelo estudo, Paula Morcelli de Castro, todos os comerciais analisados eram de produtos com alto conteúdo de gordura saturada e açúcar refinado. "Isso indica que as crianças são estimuladas a consumir quase diariamente comidas muito calóricas e pouco nutritivas. A nossa preocupação é de que esse hábito continue na adolescência e na idade adulta, levando à obesidade", alertou Paula.

A publicidade tem por objetivo tornar um produto, marca ou serviço comum ao publico. Procura influenciar ideologicamente a mente das pessoas, afim de que elas consumam o produto apresentado. Não importa se a mulher é vista como objeto de desejo sexual masculino, desde que ele compre uma marca de cerveja especifica, ou se a felicidade é reduzida a possuir bens, desde que ele compre o tipo de carro que está vendo na propaganda.

Desse modo, a televisão se torna a carta magma da sociedade do consumo e a publicidade sua principal redatora. Uma mudança no conceito do que significa o individuo e quais são suas necessidades dentro da sociedade, pode ser o começo da mudança do conteúdo que é apresentado nas propagandas de televisão.