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Reciclagem cultural

Joelmir Melo

Em 17 de novembro de 2003, a Comissão de Direito Humanos elaborou o quinto ranking dos piores programas da televisão brasileira. O primeiro, a novela das oito; o segundo, o programa Domingo Legal; Programa do Ratinho ficou em quarto; Casseta e Planeta em sexto, João Kleber em sétimo; Hora da Verdade em oitavo; em nono, Malhação e Faustão em décimo. Ao todo, são cerca de 20 horas de programação. Todas com mais de 27 denúncias e reclamações.

O conteúdo da televisão está recheado de apelo sexual, incitação à violência, apologia ao crime, desrespeito aos valores éticos da família etc, etc, etc... Provavelmente, para cada reclamação desta acima citada devem existir mais de quatro programas que vão ao ar todas as semanas em TV aberta. E como se pode observar existem muitos programas que se enquadram em quase todas, se não todas essas características.

A cultura sempre foi nivelada por baixo. Desde a época de Roma, os líderes ofereciam o famoso “pão e circo” para que a população sempre tivesse a mente ocupada e não houvesse revoltas no império. Muito se fala em educação no Brasil, mas o que a elite quer mesmo é a ordem para nós e progresso para eles. Muitas pessoas com nivelamento cultural baseado nos programas de TV de hoje, são mais fáceis de convencer e controlar do que pessoas realmente embasadas em conhecimento e cultura.

E, por incrível que pareça, não mudou muito de Roma pra cá. Agora o indivíduo trabalha por muito menos, garantindo ao patrão o “mais valia” de Karl Marx. Chegando em casa exausto e totalmente vulnerável, liga a TV em um programa com um português, se não incorreto, pobre. Então ele se deita e dorme, assimilando tudo o que viu para no dia seguinte, realizar tudo de novo. Se, tão somente, ele lesse por meia hora... Isso tudo, para um adulto, que já tem seu caráter muito construído e consolidado, embora haja esperança.

Segundo Daniel Castro, da Folha de S.Paulo, as crianças e adolescentes são os que mais assistem televisão no mundo. E, por conseqüência, são os que menos lêem. Aos pais foi perguntado o que os filhos fazem todos os dias. 57% responderam que seus filhos assistem TV durante pelo menos três horas por dia. 31% responderam de uma a duas horas. A entrevista foi feita com 500 pais. No entanto, o Ibope informou que os telespectadores de 4 a 17 anos passam em setembro, em média, quatro horas e 25 minutos por dia com o aparelho de TV ligados.

A conseqüência é óbvia: “o resultado é preocupante. Quando há mais TV do que leitura, há um empobrecimento do País. Não brincar também é perigoso” concluiu a presidente eleita do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e professora da PUC-SP, Ana Bock.

Como ficam as crianças? O futuro? Se os pais estão alienados, não podem educar os filhos e manterem a TV desligada. O problema está, também, (ênfase no “também”), nos donos de TV e na política.

Se pararmos para analisar com afinco as novelas, por exemplo, veremos que quase todas pregam a cultura ao corpo, incitações à sexualidade, e o pior: acaba com a instituição básica que é a família. O divórcio é normal e até deve ser. O garanhão é muito melhor do que o marido fiel e trabalhador, que é tido como “bobão”, e “palhaço” nas novelas.

Não seria proveitoso analisar e criticar cada programa de TV que apresenta baixarias por três motivos. Primeiro: certamente um artigo se transformaria em livro. Segundo: com certeza injustiças seriam cometidas. Terceiro: existem programas que são tão baixos, tamanha a clareza e obviedade que não se tem nem argumentos inteligentes e nem é necessário análise para se constatar o fato.

É consensual a idéia de que existe muita baixaria no conteúdo da televisão brasileira. O site do programa “Quem Financia a Baixaria é contra a Cidadania” (www.eticanatv.org.br) abre espaço para críticas e reclamações. Há muita informação sobre como protestar contra a baixaria.

Existem elementos em um cesto de lixo qualquer que podem ser aproveitados. A maior parte do conteúdo da TV brasileira, nem reciclável é.