home |
 

Humor antiético

Larissa Garcia

Mulheres seminuas, simulação de assassinatos, maus tratos a animais, discriminação de minorias. Sim, é mais um programa de domingo na televisão brasileira. Mas apesar dos elementos comuns a tantas atrações dominicais, Pânico na TV pretende ser diferente dos outros porque satiriza a própria televisão e as celebridades.

Comandado pelo humorista Emílio Surita, Pânico na TV estreou no dia 28 de setembro de 2003, refletindo o sucesso que já fazia no rádio. O programa é uma mistura de Perdidos na Noite, atração apresentada por Fausto Silva na Bandeirantes nos anos 80 e Jackass, uma espécie de reality show exibido pela MTV norte-americana. Nele os protagonistas realizam “façanhas” como disfarçar-se de ursos panda, invadir um campo de golfe e enfrenta jacarés.

O programa é um ataque à mídia dentro da própria mídia. As invasões a festas de celebridades e emissoras concorrentes têm a única intenção de expor e escrachar o mundo dos ricos e famosos. O mesmo intuito tem as imitações e os quadros com nomes sugestivos como: “Faça Chifrinho Numa Celebridade” e “Sandálias da Humildade”. Esse último foi responsável por episódios polêmicos como a perseguição ao apresentador e estilista Clodovil Hernandes, que gerou uma longa discussão sobre ética nos programas humorísticos.

Mas a televisão não é o único alvo de Surita e sua trupe. Pânico é também uma afronta ao público. Ao mostrar o estereótipo da mulher objeto, por meio de modelos em trajes diminutos, ao zombar de minorias como os homossexuais, os mendigos e até mesmo os anões, o programa ataca a inteligência do telespectador.

O descaso com a qualidade oferecida ao público não pára por aí. Pânico estimula o preconceito. Nem mesmo os deficientes físicos e mentais são poupados. Em um dos programas, um senhor negro que tinha apenas uma perna foi apelidado de “Saci”. Num dos quadros permanentes do programa, um ator representa “Zé Fofinho” um personagem de fala lenta, que toma calmantes todos os dias.

O humor apresentado em Pânico na TV não tem ética nem parâmetros morais. A cada semana, as atrações ficam mais apelativas. Um dos quadros, chamado de “Lingeries em Perigo” foi o responsável pela mudança de horário e reclassificação do programa, que agora é considerado inadequado para menores de 12 anos.

Em “Lingeries em Perigo”, modelos seminuas se expõem a situações tanto inusitadas quanto vexatórias, como dar uma ceia de natal para um grupo de mendigos em São Paulo e mergulhar num tanque com tubarões. No fim de cada episódio, uma sósia da empresária Marlene Matos, tem sua morte simulada, sempre de uma forma hedionda.

Por meio de uma máscara de crítica bem-humorada à mídia, Pânico na TV disfarça suas brincadeiras de extremo mau gosto com o público. E este não percebe o quanto é ridicularizado e o pior, ainda acha tudo muito divertido.

O humor, além de entreter, deveria conscientizar. Pânico não cumpre seu papel de crítica à TV e ao mundo das celebridades porque não oferece uma alternativa melhor às outras atrações. É apenas mais um programa de domingo na televisão brasileira.