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...todas as emissoras fossem iguais a TV Cultura?

Rizza de Matos

Primeiro dia de férias

Último dia de aula. Pedro está empolgado, pois espera ansiosamente o resultado do exame de matemática antes de ir embora. Ele já fez os planos. Como não vai poder viajar com sua família durante as férias, ele vai assistir todos os desenhos que puder ver, especialmente o que passa às 9 horas da manhã, que é o seu predileto. A professora entra na classe e anuncia que Pedro está livre da recuperação. E rapidamente ele se despede dos amigos e corre para casa.

Na hora do almoço ele e toda a família se reúnem em volta da TV, calados, só movem os lábios para mastigar, hora santa a do almoço. Logo após o programa de esportes o pai se levanta e fica a mãe e os irmãos discutindo qual programa vão assistir. Dona Célia já avisa: as seis é novela, é a última semana, e depois o pai vai assistir o jornal. Pedro imaginou que assim seriam as férias, todos os horários da TV divididos entre eles.

No outro dia, nove da manhã lá estava Pedro em frente à televisão, ainda sonolento, mas não podia perder, era o seu desenho predileto. Ele senta no sofá, procura o controle, sintoniza o canal sete e não acredita no que vê: um professor ensinando química. O que aconteceu? Cadê a loira que apresenta os desenhos? Olhou o relógio, talvez tivesse acordado cedo, mas não, eram 9 horas. O que estava errado? Então resolveu mudar para o 12 que também passava desenhos, mas o desenho que estava passando ele nunca tinha visto, era sobre umas pessoas que ajudam as crianças na África.

Inquieto, chama a mãe e conta o problema. Dona Célia não podia explicar, era sexta –feira, dia de programação normal. Pedro desligou e ligou a televisão novamente, podia ser um problema da antena, mas nada aconteceu. Continuava tudo igual. Ele pede para mãe ir à casa dos vizinhos, ela explica que os vizinhos do 302 estão viajando e os do 204 estão no trabalho. Desesperado ele liga pra Rafael.

- Alô! Rafael aqui é o Pedro, a TV da sua casa está “funcionando”? Pergunta preocupado.

- Não está. Minha mãe já ligou pra todas as amigas dela e também está assim. Acho que é na cidade toda, que estranho, não passou nem aquele plantão avisando. Mas se voltar a funcionar eu te ligo.

Passados alguns minutos o telefone toca e Bia diz que em sua casa a televisão está estragada, e ela não agüenta mais ouvir aquele professor. E para o seu desespero, sua mãe disse que são programas educativos e que a partir de hoje ela vai ter que assistir todos os dias.

Já é meio dia, o almoço na casa de Pedro está pronto, mas àquela hora tão familiar em que todos se reuniam ao redor da televisão não acontece. Dona Célia está furiosa, tinha perdido seu programa de variedades. O pai - seu José - está indignado, pois não vai poder ver a classificação de seu time no campeonato. A única que não parece se importar é a irmã, ela já está na faculdade e vive dizendo que televisão não presta.

A mãe desliga a TV e chama a família para se assentarem à mesa, desgostosos, nem comem direito. Seu José se levanta e vai comprar um jornal, talvez tenha a tabela do campeonato. A irmã volta para o quarto, dona Célia, meio perdida e um pouco confusa se dirige à cozinha. Pedro ainda tem esperança, sozinho diante da TV resolve liga-lá, talvez fosse só pela manhã, quem sabe foi ordem do governo. Mas quando coloca no sete, outro programa, agora é sobre um homem de um sobrenome esquisito, ele já tinha ouvido falar dele na aula de história, mas nem se lembra.

Atordoado, aflito, vivendo uma situação caótica, Pedro começa a imaginar como será suas férias sem desenho e sem TV, 30 dias assistindo esses programas “chatos”. Mas ele lembra que ainda tem a internet, os gibis e as locadoras. Foi aí que teve a idéia que iria salvar suas férias. Ligou o computador e pesquisou na internet sobre os desenhos que ele e seus amigos gostavam, logo descobriu que muitas temporadas já estavam à venda, sem hesitar ligou para Bia, contou a novidade e sugeriu:

- Bia, você já pensou se a TV não voltar a funcionar, nossas férias estarão perdidas, mas se eu, você e o Rafael juntarmos nossa mesada vai dar pra comprar alguns DVD´s dos desenhos e os outros a gente aluga e toda tarde podemos nos reunir e assistir. O que você acha?

- Ótima idéia Pedro, vai ser legal, assim não vou precisar assistir aqueles programas educativos. Vou contar para o Rafael, tenho certeza que ele vai aceitar. O que você acha de assistir uma temporada hoje?

- Perfeito Bia, pois acabei de lembrar que na última vez que aluguei um vídeo, eu vi a antiga temporada daquele desenho que passa de manhã. Vamos a locadora?

- Sim. Só vou ligar pro Rafa, e a gente se encontra lá.

Depois de meia hora lá estavam eles. A locadora estava cheia, parece que todas as televisões da cidade tinham parado de “funcionar”. Prontamente eles correram até a seção de desenhos, avistaram o desenho desejado. Bia segurou a fita e juntos se dirigiram ao caixa. Ufa! O dia estava salvo e se a TV não voltar ao normal Pedro e seus amigos já resolveram o problema, vai continuar tudo igual.