Mais de cinco décadas de horror marcaram a história dos Colombianos. Diante do acordo de paz, votaram não!

Victória Coelho

Quem nunca viveu o drama de depender de uma resposta? Na maior parte das situações, o que se espera é um sim, mesmo que o não seja a única certeza que se tenha. Independente da réplica, uma coisa é certa: há consequências, sejam elas positivas ou não. Eva, no paraíso, precisou optar pelo sim ou pelo não. Você, caro leitor (a), não passou ileso dessa. Assim como eu, precisou ouvir longos e inexplicáveis “nãos” dos seus pais, assim como obteve retornos afirmativos.

Ainda no dilema do “sim” ou “não”. Chega-se à conclusão de que esses opostos ultrapassam fronteiras e dividem terras tupiniquins. A Colômbia, quarta maior economia da América Latina, reflete o quão complexo pode ser a “historinha” do “sim” ou “não”. Nesse caso, do “sí” o “no”.

As Farc

A capital do país, Bogotá, traz consigo lutas e histórias. Mas, é sempre lembrada por uma sigla comumente abordada: as Farc. Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, que conta com uma das guerrilhas de maior poder bélico do globo.

Fundada em 1964 por camponeses rebeldes é o mais antigo grupo de insurgentes na América Latina. O grupo é financiado por extorsão, sequestro e tráfico de drogas.Em 1948, o presidente da Colômbia, Jorge Eliécer Gaitánda foi assassinado. Esse crime gerou revolta. Liberais e conservadores entraram em conflito. Neste mesmo contexto, a Colômbia viveu por dez anos, um período chamado de La Violência. Os camponeses se rebelaram contra o governo por mais longos anos, criando, assim, as Farc.

Uma guerra pela paz?

Após a fundação desse movimento, a luta pelo acordo de paz foi travada. Em 1984, o primeiro acordo entre o governo Colombiano e as Farc foi feito. Quem prevaleceu? O “não”. Em 1991, outra tentativa, mais uma vez, sem êxito. Oito anos depois, o mesmo questionamento surgiu e o “não”, novamente, perdurou.

Na década de 1990, a violência nas Farc só crescia. Em 1999, o acordo foi buscado novamente, e o “não”, ecoou rotundamente. Contudo, o drama não acabou, na década de 2000, o surto de violência, continuava a aterrorizar o povo colombiano.

Em 2012, outra tentativa. Desta vez, o “sim” prevaleceu. Contudo, os colombianos, ainda massacrados por explosões e um sofrimento exacerbado, votaram contra a anistia.

O plebiscito de vida ou morte

O ano de 2016 foi marcado por reviravoltas na política brasileira, desastres, como também vitórias para a nação. Esse ano, também ficará marcado para sempre na história da Colômbia. Foi proposto em Cartagena, novamente, um acordo de paz entre o governo e as Farc. Esse acordo colocaria fim a mais de 50 anos de conflito que deixou um saldo de 220 mil mortos.

O não venceu

Poucas histórias terminam com finais felizes. Na questão das Farc, muitos imaginavam que o acordo daria certo. O presidente da Colômbia, até prêmio Nobel ganhou, afinal, conseguir finalmente derrotar o “não” e fazer prevalecer o “sim”, foi uma jogada de mestre. Juan Manuel Santos, responsável por negociar o tratado de paz disse: “juntos ganharemos o prêmio mais importante de todos: a paz”. Contudo, não foi bem assim. Um dia após a votação, a manchete de um dos jornais estrangeiros dizia: “a Colômbia não quer a guerra, mas acabou de fechar o seu caminho para paz”.

A mídia, o povo, muitos foram surpreendidos. Todos estavam confiando no “sim”, mas, o “não” prevaleceu. Diferença pequena? Sim, 0,4%, porém, o “não” tomou lugar do “sim” e gritou por toda Colômbia e globo sua posição contrária em relação ao acordo de paz.

Cadê o povo que não votou?

O povo foi às urnas para dar um veredito ao plebiscito. O voto é democrático e indiscutível. A resposta do “não”, se deu por diversos fatores. Os guerrilheiros teriam penas brandas e seriam julgados pelo acordo de paz. O povo resistiu. Preferem punições mais duras das que estão no acordo, querem que paguem e peçam perdão. Contudo, muitos não optaram pelo “não”, tampouco, pelo “sim”. Para ser mais precisa, 62% dos colombianos não votaram.

O povo resistiu, na verdade, ignorou. Agora, restam incertezas. Com o acordo de paz, muita coisa poderia mudar. Os mais de 50 anos de horror seriam superados? É utópico pensar assim. Entretanto, aquela parcela que votou pelo “sim” decidiu olhar para frente, e não para trás, isso é indiscutível.

Por exemplo, as famílias que foram obrigadas a deixar suas terras, poderiam voltar. Haveria também cessar fogo e desarmamento. Os guerrilheiros seriam inseridos na vida civil, novamente, podendo até se candidatar a cargos públicos. O narcotráfico, algo tão preocupante, seria renunciado. Outras medidas fazem parte do acordo, porém, o povo resistiu.

Diante da dor dos outros

Quem somos nós diante da dor dos outros? Absolutamente nada. O povo colombiano possui feridas abertas há mais de cinco décadas. Quando elas vão se curar e finalmente o “sim” vai imperar em um acordo de paz? Não nos cabe entender, apenas respeitá-los e esperar por dias melhores.