“Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã”

Tábbta Morais

As FARC (Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia) são o movimento de revolta que fez os colombianos repensarem seus conceitos de justiça. É o movimento responsável por banhos de sangue, sequestros e tráfico de drogas que aterrorizam a vida do país. E foi cobrindo o conflito entre os revoltosos e o governo que o periódico El País (da Colômbia) mostrou mais uma vez o respeito pelos direitos do povo à informação.

São 52 anos de luta e sangue, mas desde 20 anos após a fundação do movimento, em 1964, são propostos acordos de paz. As notícias que tomam as manchetes de El País quanto a este assunto, como de costume, não carregam nenhuma segunda intenção. Não existe tendenciosidade clara pesando para nenhum dos lados, e não é de se admirar que esse seja o periódico que noticia a guerra enfatizando a paz. El País é um exemplo claro do que deve ser o jornalismo decente em meio aos dias de glória dos veículos embusteiros.

Nessa luta entre guerrilheiros, camponeses, paramilitares, soldados e cidadãos que nada têm a ver com a guera, ninguém está ganhando nada além de sobrevivência – e isso é um belo prêmio considerando as mais de 220.000 mil pessoas que perderam a vida em batalhas, chacinas e atentados desde o primeiro conflito.

Não existe uma maneira fácil de se posicionar no meio da guerra. É conveniente ao bem comum que o anseio predominante seja a paz, no entanto El País mostrou o outro lado da moeda. Sim. Ele existe mesmo que não seja conveniente a todos. Trouxe inclusive reportagens sobre a vida dos guerrilheiros e sobre suas dificuldades em se encaixar novamente na sociedade.

A matéria de 05/09/16 “A vida de guerrilheiros das FARC após depor as armas” começa contando a história de um dos integrantes desde que entrou para o movimento. Humanizar a história não é um truque para que os combatentes sejam menos repelidos pela sociedade.

Ver um veículo de comunicação com tamanha influência humanizar a história de homens e mulheres que abriram mão de tudo na vida por uma causa maior, só alimenta as esperanças de um grupo gigante de estudantes e profissionais do jornalismo que ainda acreditam em jornalismo de verdade. Humanizar essas histórias, como El País tem feito de maneira tão profissional e livre de sensacionalismo é nada mais que exercer essa profissão privilegiada com a responsabilidade que ela demanda.

No mesmo dia em que os brasileiros escolhiam os representantes de suas cidades e câmaras municipais, os colombianos davam seu voto ao plebiscito decidindo de uma vez por todas se a paz poderia finalmente ser rotina no país. A resposta final foi não. Depois de tantas mortes, depois de tantos ataques e tanto sofrimento, depois de tanto caos, a maior parte do país fechou as portas para a paz.

Os brasileiros jovens não sabem o que é a realidade da guerra. Mas os colombianos sabem. Apesar de tantas dificuldades, crianças e jovens brasileiros não perdem famílias em ataques violentos, não são levados para se juntarem às patrulhas e não são ensinados a matar pessoas. E mais: o brasileiros não perdem parentes em chacinas e sequestros, não veêm seus familiares desaparecerem e suas vidas e patrimônios se perderem após atentados terríveis e constantes em todo o país. Os colombianos sabem como é isso.

Apesar de um grupo gigantesco ter votado a favor do acordo de paz, a maioria votou contra. E o voto não pode ser contestado. Apesar de a paz ter sido adiada outra vez, não houve criticas à decisão por parte de El País. Apenas uma exposição clara dos fatos e a aceitação de que a realidade dos colombianos vai permanecer tensa e caótica pelos próximos meses.

O cessar-fogo entre a guerrilha das Farc e o Governo foi prorrogado até 31 de dezembro. Será um lenitivo para os colombianos que não aguentavam mais a guerra. Se essa amostra de paz fizer tanto o povo quanto os guerrilheiros sentirem a tranquilidade de uma vida normal e sem violência, quem sabe as pessoas que votaram “no”, mudem de ideia e abram de uma vez por todas as portas para o que já foi considerado utopia na Colombia: a paz.

Enquanto isso, El País é o lenitivo do jornalismo. É qualidade em meio ao caos que a profissão está vivendo. E quem sabe coberturas como essa possam encorajar outros veículos a abrir as portas para a maior utopia do jornalismo: a imparcialidade.

Encerro citando Victor Hugo: “Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã”.