Um documentário sobre o cativeiro e o resgate de John Frank Pinchao das FARC

Julie Grudtner

“As Farc são um grupo que não pensa, eles simplesmente agem por instinto”. A declaração pertence a John Pinchao, um subintendente da força policial do Chile, e foi pronunciada em depoimento para o documentário Fuga de las Farc da Discovery, produzido em 2008. O filme de quarenta minutos conta a assombrosa história de como Pinchao fugiu de um acampamento guerrilheiro das Farc (Forças Armadas Revolucionárias Colombiana) após 8 anos de cativeiro.

O pesadelo da guerrilha colombiana, começou em 1964. As Farc se formaram junto a outros dois grupos socialistas que decidiram se opor a Frente Nacional da Colômbia– na época, principal força política do país – com propósitos de estabelecer a paz no território nacional. Desde então, a experiência de Pinchao é apenas mais uma entre as dezenas de sequestros e atrocidades que as Farc cometem até hoje.

Mitu, Colômbia. 1998. John Frank Pinchao e outros setenta e sete policias rondavam a cidade quando foram atacados pela frente oriental das Farc. Pinchao estava com 24 anos de idade e tinha acabado de ser promovido a subintendente da polícia colombiana. Os dois mil guerrilheiros das Farc, que envolviam moradores da cidade (inclusive crianças) mataram dezesseis policiais. Os outros 66 militares foram brutamente detidos. Entre eles, Pinchao. Assim começa o documentário Fuga de las Farc, onde o militar conta como fugiu dos guerrilheiros.

Os policiais aprisionados seguiram uma longa distância até chegarem ao primeiro dos acampamentos. Eles não eram autorizados a descansar ou andar fora da fila. No decorrer do documentário, comentado por Luis Eladio Pérez, Oscar Naranjo, Henry Mendonza e pelo o ex-guerrilheiro ‘Camilo’, é possível um claro vislumbre da tamanha crueldade dos guerrilheiros. Algumas dramatizações também viabilizam as dimensões do acampamento e as condições a que eram submetidos os cativos. Nos anos que se seguiram, os policiais, supervisionados 24h por dia, viveram com uma alimentação a base de farinha e água do rio com corante. Esse regime fez com que eles perdessem a força. Pinchao ficou subnutrido e desidratado, além de contrair malária 7 vezes.

Após alguns anos em cativeiro, Pinchao finalmente começou a traçar seu plano de fuga. O subintendente conversava com seus outros cativos e também com alguns guerrilheiros afim de aprender algo novo. Então escolheu uma noite e fugiu. Logo que deram falta em Pinchao, os guerrilheiros acionaram comandantes dos outros acampamentos e mandaram patrulhas para rodear as possíveis rotas de Pinchao. Essas patrulhas procuraram o subintendente durante alguns dias, mas depois de uma semana e meia cessaram a busca ao concluir que ele havia morrido. Porém, Pinchao continuava seu caminho.

Em uma das dramatizações do documentário, o ator que interpreta Pinchao aparece em frente a um rio. Ele diz: “Se eu fico, morro. Se tento uma fuga, também vou morrer. Então terei a satisfação de morrer em liberdade. ” Essa afirmação representa a resiliência de Pinchao diante das dificuldades encontradas no caminho. Pinchao desejava a liberdade a todo custo. Então fez uma boia colocando um galão de água vazio dentro da sua mochila e atravessou o rio.

Pinchao passou 18 dias foragido entre florestas até ser resgatado por um helicóptero da polícia colombiana. O momento de dramatização ficou retratado com a cena de Pinchao chorando ao abraçar os policias que desceram para busca-lo. “Foi como uma reconciliação com o tempo”, disse Pinchao emocionado referindo-se ao resgate. A emoção continuou ao reencontrar sua família no aeroporto em meio a abraços.

E foi como todo reencontro, porém, não como o de amigos após uma viagem ou de um marido com a esposa após um dia de trabalho. Foi um reencontro com o tempo perdido nos anos de cativeiro. Um reencontro do alívio em ter uma família para amar, uma casa para morar e uma liberdade para viver. A coragem de Pinchao foi essencial para a sobrevivencia em meio aos tantos pesadelos que as Farc causaram perpetraram por meio do comportamento animalesco. Entretanto, a liberdade do subintendente foi o grito de vitória sobre toda e qualquer manifestação de selvageria. Ao final do documentário, Pinchao aparece com os braços abertos e os punhos cerrados simbolizando o marco de uma nova fase. “Viva la liberdad!”, ele grita. E a tela escurece.